Eu cresci em uma comunidade muito conhecida na cidade de São Paulo. Conhecida, justamente, pelo terror que capturava as manchetes dos noticiários. Um lugar onde a miséria não era apenas circunstância, mas substância, infiltrando-se na carne dos que ali respiravam. Ali, desde muito cedo, fui iniciado em narrativas tão horrendas que, se fossem reveladas, assombrariam o mais valente dos homens.
Carrego comigo essas memórias como se fossem parasitas famintos que me devoram por dentro, pouco a pouco. Com a degradação da minha mente, nesta cela fria, decido partilhar algo que assola a minha sanidade sem pestanejar. Apodrecendo nesta cela, cuja umidade e o ar gélido, como os de um necrotério maldito, sussurram acusações em minha mente já fragilizada por essa doença infame que me consome, não vejo saída senão partilhar uma dessas recordações, antes que se apaguem no esgoto do meu espírito.
Diga-me, caro leitor: você já ouviu falar em homens de "corpo fechado"? Assim se falava naquele tempo, não como metáfora, mas como uma crença sussurrada entre os becos e vielas.
Eu só tinha dezenove anos. E uma conjunção cruel de fome, desprezo social e destino me conduziu ao ofício da violência. Há poucos dias, empunhar uma arma me fora confiado, assim como a guarda de um dos acessos mais movimentados da comunidade. Função que me pareceu tão banal quanto qualquer labor honesto, pois esse era o estado da corrupção de minha consciência. Não que restassem muitas opções, visto que os acessos negados para oportunidades dignas, eram frequentes para muitos de nós.
Nascido em meio ao massacre, carregava ódio de sobra para descarregar. E aqueles dias eram propícios para quem desejava derramar sangue. As ruas fervilhavam em sangue. Os jornais falavam de uma ordem restabelecida, uma mentira grotesca, comprada, que mascarava o caos que nós, de dentro, conhecíamos intimamente.
Naqueles dias, uma chacina tomou os noticiários devido ao confronto de dois grupos rivais. A narrativa jornalística falava de um enfrentamento entre bandidos e de uma intervenção heroica da polícia. Mas eu lhe garanto: algo mais sinistro aconteceu naquele beco.
O fato é que, nessa última operação, algo, o horror, se manifestou.
Um grupo rival fora encurralado em um bar próximo à entrada principal. Cercados, sem escapatória, aguardavam o inevitável. Eu estava nas proximidades do local e pude presenciar os fatos. Vi quando a porta de aço se tornou uma barreira entre nós e eles. A correria e o desespero, em meio aos disparos descontrolados que quebravam janelas e invadiam residências. Impedido de fugir, juntei-me aos comparsas para dar cabo daqueles desordeiros.
Um disparo, vindo do interior, rompeu o silêncio tenso e feriu um dos nossos. A resposta foi imediata: uma tempestade de chumbo que dilacerou a barreira de aço e reduziu o interior do estabelecimento a um cenário de devastação irreconhecível.
Quando, por fim, a barreira cedeu, revelando o interior...
Meu Deus.
Os corpos jaziam em posições grotescas, como marionetes cujos fios haviam sido brutalmente cortados. O sangue revestia as paredes como uma pintura profana.
Ao fundo, ouvíamos, de longe, sirenes se aproximando. Preparávamo-nos para partir sem deixar vestígios. Até que...
Movimento.
Do amontoado de carne dilacerada e morte, uma figura ergueu-se, com um gemido que me fez paralisar e arrepiou minha espinha.
Levantou-se como um homem, mas também como algo que não deveria possuir vontade.
Ele saltou.
Os disparos que se seguiram não foram de estratégia, mas de puro terror. Dois dos meus caíram quase instantaneamente. Outro, tomado por pânico absoluto, voltou sua arma contra si; gritando como um animal ferido, disparou contra o próprio corpo.
E a criatura, com um sorriso macabro, permanecia de pé. Coberta de sangue alheio, avançava.
Àquela distância, não havia como errar, e disparamos certos de que cairia segundos depois. No entanto, nenhum impacto produzia nele qualquer sinal de dor ou hesitação.
Havia em seu caminhar algo profundamente errado. Uma ausência completa de humanidade, como se a própria noção do que é vivo tivesse sido pervertida.
Eu e os outros dois que restaram disparamos até que nossas armas se tornassem inúteis. E, ainda assim, ele simplesmente se afastou.
Entrou em um beco escuro, como se fosse levado por algo, ou alguém, além da nossa compreensão.
Nenhum de nós ousou segui-lo. A sensação era de que seríamos devorados. Assombrados pelo que vimos, demoramos a perceber o barulho e a luz das sirenes que se aproximavam rua acima.
Restou-nos fugir. Não apenas do flagrante, mas daquilo que, naquela noite, compreendemos não pertencer ao mundo dos vivos.