
r/livrosterrorBR

CONTÉM SPOILERS!
Que livro SENSACIONAL, uma obra-prima maravilhosa! 10/10.
É a terceira vez que leio e, curiosamente, minha visão nas leituras anteriores foi bem pobre, como se eu não tivesse realmente entendido o que o autor quis passar. Eu até entendia, mas de forma superficial. Dessa vez, a história mexeu com as minhas estruturas, me deixou alarmado, e eu imaginei cada cena perfeitamente. Senti uma enorme empatia por Gregor, mesmo o imaginando como um inseto gigante.
E vou além: passei a refletir sobre as baratas (aqui em casa elas aparecem com certa frequência) e que elas poderiam ser como o Gregor. Eu sei, esse não é o cerne da história, não é exatamente o que o autor queria que eu entendesse. Mas não deixei de pensar em quão miserável é a vida das baratas. Naturalmente, elas têm medo dos humanos, vivem em esgotos, longe da luz do dia. Se escondem nos cantos da casa, fogem desesperadas quando um humano aparece. E, lendo A Metamorfose, isso fez tanto sentido ao se aplicar a Gregor. Cheguei a me perguntar: será que as baratas sofrem de depressão?... Enfim, acho que isso não vem ao caso. Mas é pra mostrar o quanto esse livro me fez refletir.
Anotações que fiz enquanto lia:
Após se ocuparem em seus respectivos empregos, Gregor foi abandonado. Ganhar o sustento se tornou mais importante do que o bem-estar do personagem.
Gregor acostumou-se com a sua depressão, a ponto de não ver mais problema nas mudanças que fizeram em seu quarto. Já não sentia apetite. Entregou os pontos, desistiu de lutar. E se tornou, pouco a pouco, invisível para a família, que agora o via apenas como um inseto.
É muito simbólico o fato de terem jogado tralhas e objetos inutilizados no quarto de Gregor. Para a família, ele havia perdido o valor como filho, irmão e ser humano. Assim como, para a sociedade, já não era mais um indivíduo. Eis a metáfora do inseto. Gregor se afundou em uma depressão catatônica.
Por toda a vida, Gregor se doou para que a família tivesse conforto — e fazia isso com satisfação. Mas, após sua metamorfose, só o que sentia era indiferença. Já não se importava com o próprio estado. Aprendeu a conviver com ele. Ou, mais precisamente, se conformou. O medo, a repulsa e a vergonha sumiram. Ele aceitaria o que viesse. Lutar seria inútil. Era impossível escapar do que havia se tornado.
Mas, bem no fundo, Gregor ainda estava ali. Ele foi tocado pelo som do violino da irmã. Sua humanidade ainda era latente. Queria defendê-la, poupá-la daqueles que não apreciavam seu talento evidente. Naquele ambiente, ele era o único que a enxergava além das aparências, embora ela não tivesse capacidade de retribuir.
Há uma parte em que o pai faz de tudo para que os novos inquilinos não vejam Gregor. Aqui fica nítida a vergonha que o pai, em especial, sentia do próprio filho. A depressão de um familiar pode despertar esse tipo de sentimento. Os pais querem se orgulhar dos filhos. Sentem satisfação quando são admirados, como se pensassem: “tiveram uma boa criação”. A maioria das famílias não está preparada para lidar com uma depressão tão profunda e debilitante como a de Gregor. Mesmo sem querer, sentem que é um fardo pesado demais — ainda mais quando a pessoa se fecha e se nega a receber qualquer tipo de ajuda. No caso de Gregor, ao meu ver, ele queria ajuda, mas não tinha forças para pedi-la. A reação da família só reforçava isso, fazendo com que ele se sentisse um inseto da pior espécie. Então, ele acreditou que o melhor seria se isolar, para poupar os pais e a irmã. Ou seja, mesmo nessa situação, ainda pensava no bem-estar deles, em detrimento do seu.
Os inquilinos, com seu possível TOC de limpeza, parecem representar a sociedade e as máscaras que usamos. A sujeira e a decadência de Gregor são uma metáfora quase palpável de uma depressão profunda. E, por mais que se negue, a sociedade fecha os olhos para pessoas nesse estado. É melhor sorrir e manter as aparências. Caso contrário, sofra sozinho — porque, no fim, é cada um por si. A Metamorfose é um retrato cru e fiel do que nos tornamos enquanto sociedade.
Em determinado momento, a irmã, Grete, em revolta, nega explicitamente a existência de Gregor. Para ela, aquele ser não era mais seu irmão, era um monstro — e, por isso, precisava ser eliminado. Esse momento mexeu muito comigo. É o que muitas pessoas fazem diante de um quadro grave de depressão. Parecem se importar, mas, no fundo, não querem se envolver. É uma falsa gentileza. A fala de Grete é a verdade cruel que muitos gostariam de dizer, mas não dizem.
A irmã passa a agir com mais autonomia: começa a estudar e a trabalhar em uma loja. O pai consegue emprego num banco, a mãe passa a costurar. Grete se torna uma espécie de esperança para a família. Antes, Gregor era o único provedor, e ela se mantinha no papel de filha mais nova e frágil. Após a metamorfose, tudo muda. E aqui há uma forte simbologia: não foi só Gregor que sofreu uma metamorfose, a família também. Mas de formas diferentes. A dele foi brutal e fatal. A da família foi necessária: ou trabalhavam, ou afundavam.
Isso escancara algo muito real: o dinheiro rege tudo. Somos reféns de um sistema onde o valor das pessoas está ligado ao que elas produzem. Enquanto Gregor apodrecia no quarto, o mais importante era o sustento. Seus sentimentos já não importavam. Isso me lembrou uma frase de Declínio de um Homem: “O fim do dinheiro é o fim das relações”.
E, por fim, Gregor, já sem forças, morre. Ali, magro e seco, no meio do quarto, é visto por todos. Há um misto de tristeza e alívio. E então, os três, já pensando no futuro, pegam um bonde e saem para tomar ar fresco. É um dia bonito, ensolarado, que sugere um recomeço.
Mais uma vez, tudo muito simbólico. A metamorfose de Gregor foi cruel. A da família, decisiva. Eles seguiram em frente. E há até um jogo interessante entre “metamorfose” e “metáfora”. Se você levar a transformação de Gregor ao pé da letra, a história perde força. Mas, ao encarar como metáfora, tudo ganha um peso muito maior.
Junji Ito. Declínio de um homem.
ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!
Tudo aqui é intensificado ao nível máximo do horror psicológico. Apenas alguns acontecimentos são os mesmos do livro. É mais como se Junji usasse a história original como inspiração para criar algo ainda mais denso e sombrio.
Os traços de Junji são hipnotizantes. Mas a história, apesar de ter muita personalidade, me decepcionou em alguns aspectos. A covardia do personagem nessa adaptação, por exemplo, é exacerbada. Junji pegou essa característica do livro e extrapolou ao máximo. O cara é, literalmente, um cagão. Além de sentir medo do ser humano, especificamente, também sente pavor das mulheres, e foge delas — ou até as estupra, sim, isso mesmo — quando se sente ameaçado, traído, ou quando deseja algo que elas possuem.
E chances é o que não falta para Yozo tentar reparar algumas coisas, se redimir, mesmo que isso pareça impossível. Mas ele não faz isso. E isso me incomodou imensamente. Não senti isso tão forte no livro. O personagem entra quando quer na vida de diferentes mulheres e, quando a situação aperta — obviamente por erros que ele mesmo comete — simplesmente foge ou se faz de vítima.
E, sério, nesse ponto eu concordei que ele é uma completa farsa e manipula as pessoas ao seu bel-prazer. Yozo se faz de vítima para escapar das consequências de suas ações, e quase sempre consegue. É patético.
E, mesmo assim, as mulheres ficam gamadas nele, e isso não entra na minha cabeça. Uma delas, a mulher que tinha uma filha e trabalhava num jornal, chega a dizer que o jeito melancólico e meio engraçado de Yozo era o que fazia as mulheres se apaixonarem por ele. E eu só consegui pensar: “É sério isso?”. Não acho que as mulheres sejam tão ingênuas a esse ponto. Quer dizer, elas ficariam loucas de paixão por um homem nitidamente destruído, com bafo de pinga e que aparenta não tomar banho? O cara está sempre acabado, se arrastando, entrando e saindo de bares como se fossem sua própria casa. Não tem nenhuma decência, abusa da boa vontade das pessoas.
Desculpa, mas aqui vou ter que pegar pesado: ele é um hipócrita e um mau-caráter.
Eu entendo tudo o que ele passou, mas foi ele quem escolheu permanecer na miséria e numa autopiedade sem fim. Como eu disse, ele teve várias chances de tentar melhorar como ser humano.
Mas voltando... essa mulher que disse aquilo tinha acabado de conhecer Yozo, sentiu pena dele e o levou pra casa, mesmo tendo uma filha pequena. Quão imprudente e sem noção essa mulher é? Bastava ajudá-lo a conseguir um emprego no jornal onde ela trabalhava.
E, nessa adaptação, a mulher da farmácia, que consegue morfina pro Yozo, se envolve romanticamente com ele. Yozo viola a pobre mulher — porque é isso que ele faz: suja mulheres que são boas por natureza. E o pior é que, depois disso, ela continua ao lado dele e ainda se apaixona. Aqui foi o cúmulo pra mim.
Yozo estava claramente se aproveitando dela ao mesmo tempo em que recebia a morfina. E ainda tem a cara de pau de dizer que ela era sua alma gêmea. E não, não era porque ela tinha uma veia artística; ele só estava interessado na morfina mesmo.
Enquanto isso, a esposa dele vai definhando e enlouquecendo, tudo por culpa dele. Ele destrói a vida dessa mulher de um jeito horrível. Esqueci o nome da personagem, mas a principal característica dela é confiar nas pessoas. Ela acredita na bondade humana e se entrega completamente.
Então aparece um homem que trabalhava num jornal famoso e estava tentando convencer o chefe a serializar os mangás de Yozo. Esse escroto estupra a moça, e Yozo — sabendo muito bem que sua esposa era inocente, bobinha e confiava em qualquer um — insiste que ela o traiu. Ele encara aquilo como infidelidade, não como estupro.
Eu já tinha largado a mão do Yozo na metade do mangá, mas aqui foi demais pra mim. Ele a culpa várias vezes e, não satisfeito, ainda a viola, como se ela não fosse um ser humano. O personagem é podre.
No livro, Yozo tinha consciência de que aquilo havia sido um estupro e foge. Apesar de errado, eu entendi por que ele agiu daquela forma, por causa de toda a construção psicológica do personagem. Não foi gratuito. Ele tinha um medo genuíno dos seres humanos, causado pelos traumas e pela incapacidade de se encaixar na sociedade.
Mas o Yozo do mangá age de forma muito mais intencional. No livro, ele é autodestrutivo, mas as consequências do que faz recaem mais sobre si mesmo do que sobre os outros. Já no mangá, o que ele faz com a esposa é extremamente pesado. Ele é um narcisista da pior espécie. E ainda conta pra si mesmo — e pros outros — essa historinha de que foi traído, como se tivesse sofrido a pior injustiça do mundo.
A mulher da farmácia se sente culpada porque a esposa de Yozo roubou suas plantas venenosas para se matar. Então ela queima todas as plantas, mas o fogo alcança a casa, que parecia ser feita de madeira, e tudo se alastra rapidamente. Ela entra desesperada para salvar o sogro doente, e os dois morrem. Muito triste... Fiquei com muita pena dessas duas mulheres. Elas eram boas demais, e Yozo não merecia nenhuma delas.
Depois disso, o irmão de Yozo aparece com o Linguado — um conhecido do pai dele, que foi uma espécie de “guardião” por um tempo. Ele tinha esse apelido por parecer um peixe. Também aparecem o irmão e a madame do bar, outra mulher com quem Yozo se envolveu em algum momento da vida.
Yozo descobre que o pai faleceu, depois de muito resistir. Em certo momento, é dito que ele sofreu um acidente, uma queda, e ficou em estado crítico.
Yozo é internado num sanatório e sofre abstinência química, além de alucinações, por uma semana. Lá, fica amigo de um paciente fisicamente muito parecido com ele. Aqui achei o Junji extremamente criativo: o paciente é ninguém menos que Osamu Dazai.
Os dois trocam confidências, riem e choram juntos. Osamu entrega a Yozo seu primeiro livro, uma coletânea de contos. Yozo se identifica profundamente com as histórias e relê o livro várias vezes.
Em determinado momento, descobre que sua prima — a que ele engravidou — também estava internada ali, e o filho dela ficava andando pelo jardim. Yozo achava que aquilo era mais uma alucinação. O menino era a cara do Takeichi, um dos colegas de infância de Yozo e um dos poucos que percebiam suas “atuações de palhaço”.
Ah, eu não tinha falado do Takeichi. Mas Yozo foi podre com ele também. O menino já tinha dificuldade para se encaixar, sofria bullying, e Yozo, sem a menor empatia, inventa uma mentira porque sente que Takeichi poderia expor sua farsa na escola. Ele diz ao garoto que sua prima mais nova tinha interesse nele.
Takeichi, todo ingênuo e emocionado, escreve uma carta e pede para Yozo entregá-la. Depois disso, começa a frequentar a casa de Yozo para ficar perto da menina. Mas ela começa a achar que estava sendo perseguida e passa a tratar o garoto como um bicho, humilhando-o. Pouco tempo depois, ele se suicida.
Yozo passa a vida sendo assombrado por Takeichi. E, como uma espécie de karma, a menina engravida, e o bebê se parece justamente com ele.
Essa mesma garota descobre que a irmã mais velha também estava grávida de Yozo e a mata com extrema frieza. Depois disso, é presa ou internada.
Yozo então se muda para a capital, entra na universidade e conhece aquele cara do livro — o sujeito sem caráter que o afunda no mundo dos vícios.
A diferença entre o mangá e o livro é que, no mangá, Yozo já comete ações horríveis desde cedo. No livro, o foco está muito mais na psicologia dele, na visão distorcida que tinha do mundo e de si mesmo, do que em atitudes que destroem diretamente a vida de outras pessoas. Pelo menos foi essa a impressão que tive.
Mas enfim. Em um dos desabafos para Osamu, Yozo chega a dizer que Takeichi o odiava — o que é uma mentira absurda. Mais uma vez, ele tenta justificar suas merdas e se colocar como vítima, ao invés de admitir que foi um lixo como ser humano.
Yozo recebe alta e decide sair dali com o filho e a prima, que provavelmente se tornaria sua esposa.
Doze anos se passam.
Osamu escreve Declínio de um Homem e vai até o endereço de Yozo para rever o amigo e lhe entregar o livro. Ao chegar lá, descobre que Yozo vive numa casa caindo aos pedaços. Quando entra, encontra um homem moribundo, aparentando ter uns setenta anos.
Yozo passou a vida sendo abusado e agredido pela prima. Ela é paranoica e não aceita mulheres bonitas perto dele, porque acredita que ele a traiu com todas elas. Então o agride e o subjuga constantemente.
Ao que parece, o karma veio com toda a força.
Osamu vai embora dali. E, na última página, no jornal que o filho de Yozo usa para fazer um pipa, está a notícia do suicídio de Osamu e a frase: “Não consigo mais escrever.”
E, na praia, sentado numa cadeira enquanto o filho brinca com o pipa e a esposa caminha pela areia, Yozo pensa:
“Eu só espero o tempo passar. Tudo passa. Me tornei livre de alegrias e tristezas.”
Fim de Declínio de um Homem.
Lembro de ter lido já faz um bom tempo, então não lembro muita coisa.
Qual é mais legal de ler, Drácula ou Frankenstein?
Vi um resuminho dos dois livros e fiquei bem interessada em ler, porém meu orçamento só dá para um livro. Gostaria de ouvir opiniões de pessoas que já leram esses livros.
Conta que livro de terror você está lendo ou leu esse mês?
O que mais gostou nele? O que acha que dava para ser melhor? Recomenda?
Vai ler mais coisas do autor? Quanto medo você sentiu lendo?
O que acham de Caixa de Pássaros?
Li na época que o filme lançou e lembro que gostei bastante. Talvez eu releia pra refrescar a memória já que descobri que tem essa continuação chamada "Malorie".
Livro "O Exorcista".
Diferente da experiência assistindo o filme, esse livro é um mergulho doloroso nos medos que nós sentimos, dúvidas, arrependimentos , esse sentimento de ter feito o q pode e mesmo assjm falhar.
A relação da Mãe de Regan e o padre Karras é muito maior do que o filme tenta passar.
Em vez de me assustar, ele me deixou muito mais reflexiva.
AMA - Marcos DeBrito (autor e cineasta de terror)
Olá, pessoal!
Sou Marcos DeBrito, escritor e diretor de filmes de terror aqui no Brasil.
Já publiquei alguns livros, lancei três longas e fui finalista do Jabuti.
O pessoal do sub me convidou pra fazer um AMA na quinta-feira (14/05), das 21h às 23h.
Podem perguntar qualquer coisa sobre:
escrever horror cinema mercado editorial bastidores de filmagem criação de personagens psicopatas, demônios, monstros e outras coisas saudáveis
Nos meus trabalhos costumo misturar horror sobrenatural, violência, culpa, humor ácido e personagens emocionalmente destruídos.
Vejo vocês por aqui na quinta! Marcos DeBrito