u/Ewer1111

O experimento de aprisionamento de Stanford
▲ 2 r/filmes

O experimento de aprisionamento de Stanford

Terminei de assistir a este agora mesmo. Bizarro! Mas é muito interessante como um estudo da psique humana. Até onde as pessoas podem ir quando lhes são dados determinados papéis? Mostra que somos capazes de qualquer coisa, seja quando estamos em uma posição de poder, ou quando somos subjugados e não temos outra opção além de obedecer. E também mostra o quão domesticáveis somos pelo sistema, pois não nos questionamos, e mesmo quando fazemos isso, continuamos sendo o que eles querem que sejamos, porque não há saída. Resta aceitar, porque é mais fácil. O filme é baseado em uma história real.

O Experimento de Aprisionamento de Stanford, realizado em agosto de 1971, foi um estudo psicológico que demonstrou como o ambiente e os papéis sociais podem transformar drasticamente o comportamento humano.

u/Ewer1111 — 4 days ago
▲ 3 r/filmes

Keeper & O Som da Morte

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Keeper até que me agradou em algum nível, mas faltou terror de verdade. As entidades são medonhas e diferentes, mas praticamente só aparecem em uma cena, já no final.

Eu entendi que os dois caras — o amante da protagonista e o primo dele — fizeram um pacto de vida eterna, ou juventude por séculos, com as entidades, filhas da bruxa que eles mataram. E, em troca, teriam que oferecer mulheres como sacrifício. As entidades, ao que parece, se alimentavam delas.

A bruxa em quem eles atiraram na infância era a cópia perfeita da protagonista. E talvez por isso, no final, as entidades possuam ela em vez de matá-la, já que ela se parecia com a “mãe” delas? É… acho que foi isso. E aquela outra entidade com vários rostos parece uma espécie de simbiose das mulheres sacrificadas, algo assim.

E na cena final, o pacto com o amante é quebrado, e ele surge super velho. Parece não enxergar, ou enxergar só vultos, mas, conforme a protagonista se aproxima, a visão dele entra em foco. Isso não fez muito sentido pra mim. Enfim, ele é mergulhado num líquido que parece mel, e o filme acaba. Esses últimos detalhes eu realmente não entendi.

Ah, e eu não lembro se mostra o que aconteceu com o primo. O cara simplesmente parece sumir depois de invadir o apartamento, enquanto a protagonista estava sozinha esperando o amante. São muitos furos nesse filme, e muito potencial desperdiçado. Poderia ter sido um terror realmente bizarro.

O Som da Morte é um terrorzinho bem abaixo da média. Tem muitas situações sem coerência alguma e resoluções rápidas, sem nenhum aprofundamento. A protagonista não tem um pingo de carisma. E parece que ela só começa a atuar de verdade no final do filme, quando ele ganha um pouco de gás. Mas, na maior parte do tempo, ela não esboça quase nenhuma expressão, fica bem engessada.

Eu até achei legal a ideia do objeto antigo e amaldiçoado, mas essa boa ideia se perde em meio a todo o amadorismo.

u/Ewer1111 — 4 days ago

Junji Ito. Declínio de um homem.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Tudo aqui é intensificado ao nível máximo do horror psicológico. Apenas alguns acontecimentos são os mesmos do livro. É mais como se Junji usasse a história original como inspiração para criar algo ainda mais denso e sombrio.

Os traços de Junji são hipnotizantes. Mas a história, apesar de ter muita personalidade, me decepcionou em alguns aspectos. A covardia do personagem nessa adaptação, por exemplo, é exacerbada. Junji pegou essa característica do livro e extrapolou ao máximo. O cara é, literalmente, um cagão. Além de sentir medo do ser humano, especificamente, também sente pavor das mulheres, e foge delas — ou até as estupra, sim, isso mesmo — quando se sente ameaçado, traído, ou quando deseja algo que elas possuem.

E chances é o que não falta para Yozo tentar reparar algumas coisas, se redimir, mesmo que isso pareça impossível. Mas ele não faz isso. E isso me incomodou imensamente. Não senti isso tão forte no livro. O personagem entra quando quer na vida de diferentes mulheres e, quando a situação aperta — obviamente por erros que ele mesmo comete — simplesmente foge ou se faz de vítima.

E, sério, nesse ponto eu concordei que ele é uma completa farsa e manipula as pessoas ao seu bel-prazer. Yozo se faz de vítima para escapar das consequências de suas ações, e quase sempre consegue. É patético.

E, mesmo assim, as mulheres ficam gamadas nele, e isso não entra na minha cabeça. Uma delas, a mulher que tinha uma filha e trabalhava num jornal, chega a dizer que o jeito melancólico e meio engraçado de Yozo era o que fazia as mulheres se apaixonarem por ele. E eu só consegui pensar: “É sério isso?”. Não acho que as mulheres sejam tão ingênuas a esse ponto. Quer dizer, elas ficariam loucas de paixão por um homem nitidamente destruído, com bafo de pinga e que aparenta não tomar banho? O cara está sempre acabado, se arrastando, entrando e saindo de bares como se fossem sua própria casa. Não tem nenhuma decência, abusa da boa vontade das pessoas.

Desculpa, mas aqui vou ter que pegar pesado: ele é um hipócrita e um mau-caráter.

Eu entendo tudo o que ele passou, mas foi ele quem escolheu permanecer na miséria e numa autopiedade sem fim. Como eu disse, ele teve várias chances de tentar melhorar como ser humano.

Mas voltando... essa mulher que disse aquilo tinha acabado de conhecer Yozo, sentiu pena dele e o levou pra casa, mesmo tendo uma filha pequena. Quão imprudente e sem noção essa mulher é? Bastava ajudá-lo a conseguir um emprego no jornal onde ela trabalhava.

E, nessa adaptação, a mulher da farmácia, que consegue morfina pro Yozo, se envolve romanticamente com ele. Yozo viola a pobre mulher — porque é isso que ele faz: suja mulheres que são boas por natureza. E o pior é que, depois disso, ela continua ao lado dele e ainda se apaixona. Aqui foi o cúmulo pra mim.

Yozo estava claramente se aproveitando dela ao mesmo tempo em que recebia a morfina. E ainda tem a cara de pau de dizer que ela era sua alma gêmea. E não, não era porque ela tinha uma veia artística; ele só estava interessado na morfina mesmo.

Enquanto isso, a esposa dele vai definhando e enlouquecendo, tudo por culpa dele. Ele destrói a vida dessa mulher de um jeito horrível. Esqueci o nome da personagem, mas a principal característica dela é confiar nas pessoas. Ela acredita na bondade humana e se entrega completamente.

Então aparece um homem que trabalhava num jornal famoso e estava tentando convencer o chefe a serializar os mangás de Yozo. Esse escroto estupra a moça, e Yozo — sabendo muito bem que sua esposa era inocente, bobinha e confiava em qualquer um — insiste que ela o traiu. Ele encara aquilo como infidelidade, não como estupro.

Eu já tinha largado a mão do Yozo na metade do mangá, mas aqui foi demais pra mim. Ele a culpa várias vezes e, não satisfeito, ainda a viola, como se ela não fosse um ser humano. O personagem é podre.

No livro, Yozo tinha consciência de que aquilo havia sido um estupro e foge. Apesar de errado, eu entendi por que ele agiu daquela forma, por causa de toda a construção psicológica do personagem. Não foi gratuito. Ele tinha um medo genuíno dos seres humanos, causado pelos traumas e pela incapacidade de se encaixar na sociedade.

Mas o Yozo do mangá age de forma muito mais intencional. No livro, ele é autodestrutivo, mas as consequências do que faz recaem mais sobre si mesmo do que sobre os outros. Já no mangá, o que ele faz com a esposa é extremamente pesado. Ele é um narcisista da pior espécie. E ainda conta pra si mesmo — e pros outros — essa historinha de que foi traído, como se tivesse sofrido a pior injustiça do mundo.

A mulher da farmácia se sente culpada porque a esposa de Yozo roubou suas plantas venenosas para se matar. Então ela queima todas as plantas, mas o fogo alcança a casa, que parecia ser feita de madeira, e tudo se alastra rapidamente. Ela entra desesperada para salvar o sogro doente, e os dois morrem. Muito triste... Fiquei com muita pena dessas duas mulheres. Elas eram boas demais, e Yozo não merecia nenhuma delas.

Depois disso, o irmão de Yozo aparece com o Linguado — um conhecido do pai dele, que foi uma espécie de “guardião” por um tempo. Ele tinha esse apelido por parecer um peixe. Também aparecem o irmão e a madame do bar, outra mulher com quem Yozo se envolveu em algum momento da vida.

Yozo descobre que o pai faleceu, depois de muito resistir. Em certo momento, é dito que ele sofreu um acidente, uma queda, e ficou em estado crítico.

Yozo é internado num sanatório e sofre abstinência química, além de alucinações, por uma semana. Lá, fica amigo de um paciente fisicamente muito parecido com ele. Aqui achei o Junji extremamente criativo: o paciente é ninguém menos que Osamu Dazai.

Os dois trocam confidências, riem e choram juntos. Osamu entrega a Yozo seu primeiro livro, uma coletânea de contos. Yozo se identifica profundamente com as histórias e relê o livro várias vezes.

Em determinado momento, descobre que sua prima — a que ele engravidou — também estava internada ali, e o filho dela ficava andando pelo jardim. Yozo achava que aquilo era mais uma alucinação. O menino era a cara do Takeichi, um dos colegas de infância de Yozo e um dos poucos que percebiam suas “atuações de palhaço”.

Ah, eu não tinha falado do Takeichi. Mas Yozo foi podre com ele também. O menino já tinha dificuldade para se encaixar, sofria bullying, e Yozo, sem a menor empatia, inventa uma mentira porque sente que Takeichi poderia expor sua farsa na escola. Ele diz ao garoto que sua prima mais nova tinha interesse nele.

Takeichi, todo ingênuo e emocionado, escreve uma carta e pede para Yozo entregá-la. Depois disso, começa a frequentar a casa de Yozo para ficar perto da menina. Mas ela começa a achar que estava sendo perseguida e passa a tratar o garoto como um bicho, humilhando-o. Pouco tempo depois, ele se suicida.

Yozo passa a vida sendo assombrado por Takeichi. E, como uma espécie de karma, a menina engravida, e o bebê se parece justamente com ele.

Essa mesma garota descobre que a irmã mais velha também estava grávida de Yozo e a mata com extrema frieza. Depois disso, é presa ou internada.

Yozo então se muda para a capital, entra na universidade e conhece aquele cara do livro — o sujeito sem caráter que o afunda no mundo dos vícios.

A diferença entre o mangá e o livro é que, no mangá, Yozo já comete ações horríveis desde cedo. No livro, o foco está muito mais na psicologia dele, na visão distorcida que tinha do mundo e de si mesmo, do que em atitudes que destroem diretamente a vida de outras pessoas. Pelo menos foi essa a impressão que tive.

Mas enfim. Em um dos desabafos para Osamu, Yozo chega a dizer que Takeichi o odiava — o que é uma mentira absurda. Mais uma vez, ele tenta justificar suas merdas e se colocar como vítima, ao invés de admitir que foi um lixo como ser humano.

Yozo recebe alta e decide sair dali com o filho e a prima, que provavelmente se tornaria sua esposa.

Doze anos se passam.

Osamu escreve Declínio de um Homem e vai até o endereço de Yozo para rever o amigo e lhe entregar o livro. Ao chegar lá, descobre que Yozo vive numa casa caindo aos pedaços. Quando entra, encontra um homem moribundo, aparentando ter uns setenta anos.

Yozo passou a vida sendo abusado e agredido pela prima. Ela é paranoica e não aceita mulheres bonitas perto dele, porque acredita que ele a traiu com todas elas. Então o agride e o subjuga constantemente.

Ao que parece, o karma veio com toda a força.

Osamu vai embora dali. E, na última página, no jornal que o filho de Yozo usa para fazer um pipa, está a notícia do suicídio de Osamu e a frase: “Não consigo mais escrever.”

E, na praia, sentado numa cadeira enquanto o filho brinca com o pipa e a esposa caminha pela areia, Yozo pensa:

“Eu só espero o tempo passar. Tudo passa. Me tornei livre de alegrias e tristezas.”

Fim de Declínio de um Homem.

u/Ewer1111 — 6 days ago

CONTÉM SPOILERS!

Que livro SENSACIONAL, uma obra-prima maravilhosa! 10/10.

É a terceira vez que leio e, curiosamente, minha visão nas leituras anteriores foi bem pobre, como se eu não tivesse realmente entendido o que o autor quis passar. Eu até entendia, mas de forma superficial. Dessa vez, a história mexeu com as minhas estruturas, me deixou alarmado, e eu imaginei cada cena perfeitamente. Senti uma enorme empatia por Gregor, mesmo o imaginando como um inseto gigante.

E vou além: passei a refletir sobre as baratas (aqui em casa elas aparecem com certa frequência) e que elas poderiam ser como o Gregor. Eu sei, esse não é o cerne da história, não é exatamente o que o autor queria que eu entendesse. Mas não deixei de pensar em quão miserável é a vida das baratas. Naturalmente, elas têm medo dos humanos, vivem em esgotos, longe da luz do dia. Se escondem nos cantos da casa, fogem desesperadas quando um humano aparece. E, lendo A Metamorfose, isso fez tanto sentido ao se aplicar a Gregor. Cheguei a me perguntar: será que as baratas sofrem de depressão?... Enfim, acho que isso não vem ao caso. Mas é pra mostrar o quanto esse livro me fez refletir.

Anotações que fiz enquanto lia:

Após se ocuparem em seus respectivos empregos, Gregor foi abandonado. Ganhar o sustento se tornou mais importante do que o bem-estar do personagem.

Gregor acostumou-se com a sua depressão, a ponto de não ver mais problema nas mudanças que fizeram em seu quarto. Já não sentia apetite. Entregou os pontos, desistiu de lutar. E se tornou, pouco a pouco, invisível para a família, que agora o via apenas como um inseto.

É muito simbólico o fato de terem jogado tralhas e objetos inutilizados no quarto de Gregor. Para a família, ele havia perdido o valor como filho, irmão e ser humano. Assim como, para a sociedade, já não era mais um indivíduo. Eis a metáfora do inseto. Gregor se afundou em uma depressão catatônica.

Por toda a vida, Gregor se doou para que a família tivesse conforto — e fazia isso com satisfação. Mas, após sua metamorfose, só o que sentia era indiferença. Já não se importava com o próprio estado. Aprendeu a conviver com ele. Ou, mais precisamente, se conformou. O medo, a repulsa e a vergonha sumiram. Ele aceitaria o que viesse. Lutar seria inútil. Era impossível escapar do que havia se tornado.

Mas, bem no fundo, Gregor ainda estava ali. Ele foi tocado pelo som do violino da irmã. Sua humanidade ainda era latente. Queria defendê-la, poupá-la daqueles que não apreciavam seu talento evidente. Naquele ambiente, ele era o único que a enxergava além das aparências, embora ela não tivesse capacidade de retribuir.

Há uma parte em que o pai faz de tudo para que os novos inquilinos não vejam Gregor. Aqui fica nítida a vergonha que o pai, em especial, sentia do próprio filho. A depressão de um familiar pode despertar esse tipo de sentimento. Os pais querem se orgulhar dos filhos. Sentem satisfação quando são admirados, como se pensassem: “tiveram uma boa criação”. A maioria das famílias não está preparada para lidar com uma depressão tão profunda e debilitante como a de Gregor. Mesmo sem querer, sentem que é um fardo pesado demais — ainda mais quando a pessoa se fecha e se nega a receber qualquer tipo de ajuda. No caso de Gregor, ao meu ver, ele queria ajuda, mas não tinha forças para pedi-la. A reação da família só reforçava isso, fazendo com que ele se sentisse um inseto da pior espécie. Então, ele acreditou que o melhor seria se isolar, para poupar os pais e a irmã. Ou seja, mesmo nessa situação, ainda pensava no bem-estar deles, em detrimento do seu.

Os inquilinos, com seu possível TOC de limpeza, parecem representar a sociedade e as máscaras que usamos. A sujeira e a decadência de Gregor são uma metáfora quase palpável de uma depressão profunda. E, por mais que se negue, a sociedade fecha os olhos para pessoas nesse estado. É melhor sorrir e manter as aparências. Caso contrário, sofra sozinho — porque, no fim, é cada um por si. A Metamorfose é um retrato cru e fiel do que nos tornamos enquanto sociedade.

Em determinado momento, a irmã, Grete, em revolta, nega explicitamente a existência de Gregor. Para ela, aquele ser não era mais seu irmão, era um monstro — e, por isso, precisava ser eliminado. Esse momento mexeu muito comigo. É o que muitas pessoas fazem diante de um quadro grave de depressão. Parecem se importar, mas, no fundo, não querem se envolver. É uma falsa gentileza. A fala de Grete é a verdade cruel que muitos gostariam de dizer, mas não dizem.

A irmã passa a agir com mais autonomia: começa a estudar e a trabalhar em uma loja. O pai consegue emprego num banco, a mãe passa a costurar. Grete se torna uma espécie de esperança para a família. Antes, Gregor era o único provedor, e ela se mantinha no papel de filha mais nova e frágil. Após a metamorfose, tudo muda. E aqui há uma forte simbologia: não foi só Gregor que sofreu uma metamorfose, a família também. Mas de formas diferentes. A dele foi brutal e fatal. A da família foi necessária: ou trabalhavam, ou afundavam.

Isso escancara algo muito real: o dinheiro rege tudo. Somos reféns de um sistema onde o valor das pessoas está ligado ao que elas produzem. Enquanto Gregor apodrecia no quarto, o mais importante era o sustento. Seus sentimentos já não importavam. Isso me lembrou uma frase de Declínio de um Homem: “O fim do dinheiro é o fim das relações”.

E, por fim, Gregor, já sem forças, morre. Ali, magro e seco, no meio do quarto, é visto por todos. Há um misto de tristeza e alívio. E então, os três, já pensando no futuro, pegam um bonde e saem para tomar ar fresco. É um dia bonito, ensolarado, que sugere um recomeço.

Mais uma vez, tudo muito simbólico. A metamorfose de Gregor foi cruel. A da família, decisiva. Eles seguiram em frente. E há até um jogo interessante entre “metamorfose” e “metáfora”. Se você levar a transformação de Gregor ao pé da letra, a história perde força. Mas, ao encarar como metáfora, tudo ganha um peso muito maior.

u/Ewer1111 — 9 days ago

ATENÇÃO: SPOILERS!

A que nível de degradação um ser humano é capaz de chegar...

Aqui, conhecemos Yozo Oba, um homem marcado por um sofrimento e uma angústia inexplicáveis. Para ele, viver é um peso incalculável, e a única forma de suportar esse mal é através dos vícios em álcool e remédios. Ele passa toda a sua vida se questionando sobre o que é ser ser humano. Para ele, o ser humano e a vida em sociedade são um infindável mistério.

Desde criança, ele já tem uma autoconsciência apurada, o que o faz interpretar papéis quando está perto de outras pessoas, independentemente do local — seja em casa, na escola ou na universidade. Ele passa a vida como um falso palhaço, um bobo da corte, porque provocar gargalhadas nos outros o faz se sentir menos temeroso em relação aos seres humanos.

Em vários momentos, ele declara ter medo dos seres humanos, como se ele próprio não fosse um. Ou seja, ele também é um mistério escabroso para si mesmo. Além disso, ele tem uma incapacidade de negar as vontades dos outros: aceita tudo o que lhe vem, mesmo que, no fundo — mas bem no fundo mesmo — queira se revoltar e fazer o contrário.

Desde a mais tenra idade, em sua terra natal, ainda como um garoto do interior, ele aprendeu a funcionar dessa maneira. E, na fase adulta, vai perdendo esse “talento” de enganar as pessoas com suas palhaçadas, conforme conhece novas pessoas, se perde no mundo dos vícios e se envolve em relacionamentos que nunca acabam bem.

Uma ou outra pessoa parece lhe dar alguma esperança, mas ele é incapaz de se ajudar e entra num caminho de autodestruição sem saída. Há um momento em que ele diz acreditar mais na punição divina do que no perdão, ou na graça divina, e que, no fim de tudo, Deus o receberá com chicotadas, por causa de seus pecados. Para ele, é mais fácil acreditar no inferno do que no céu.

E aí já se vê: com uma mentalidade tão trágica e autodestrutiva, realmente não tem jeito — o fim já é esperado.

A trajetória de Yozo é pesada e pode conter vários gatilhos. Por isso, pense bem se quer fazer essa leitura; dependendo do momento ou do seu estado, é melhor evitar.

Pois bem. O personagem tenta suicídio duas ou três vezes. Quase é preso depois de tentar um suicídio duplo com sua namorada, no qual só ele sobrevive. Inclusive, essa mulher foi, de longe, a pessoa mais solitária e triste que ele conheceu — e, por isso, ele conseguiu sentir uma espécie de amor por ela, coisa rara, já que costumava passar noites com prostitutas e, segundo Yozo, elas eram alegres demais em sua decadência. Ele ficava com elas mais pela distração.

As mulheres, em particular, sempre despertaram nele uma curiosidade singular. Elas guardavam algum segredo, e ele aspirava descobri-lo. E a cada nova relação, uma diferente faceta dos seres humanos lhe era revelada.

Ele passa toda a sua vida como um observador, ruminando ideias sobre o que poderia ser o ser humano e a vida em sociedade. Experimenta um pouco de tudo, mas nunca desfruta realmente. Ele tem um ímã para a tragédia, pois, quando sente um pingo sequer de felicidade, já acredita não ser merecedor — e automaticamente provoca algo para que a avalanche de sofrimento e depressão caia sobre si.

É triste assistir ao seu declínio. De forma gradativa, ele vai perdendo tudo, como o contato com a família e alguns conhecidos, e entra em falência total, tendo que depender do dinheiro que os irmãos ainda lhe enviam, sem o conhecimento do pai. Passa a trabalhar como cartunista, mas não avança na carreira, pois todo o dinheiro que ganha serve apenas para sustentar seu vício em álcool. Mais tarde, como forma de aplacar esse vício, torna-se dependente de morfina.

É uma espiral bizarra, sem um momento de respiro. O personagem nunca consegue enxergar a luz no fim do túnel; sua vida é uma escuridão sem fim. Yozo sempre foi inteligente, com um QI acima da média, mas sua personalidade e crenças destrutivas o levam à ruína pouco a pouco. É nítido, desde o início, todo o potencial para a grandeza que ele tem — e é justamente isso que torna ainda mais triste acompanhar seu declínio.

Quando criança, ainda sofre abusos por parte dos criados. E, mesmo quando tem a chance de dar a volta por cima, sua mente, suas crenças e sua depressão o fazem declinar novamente. No final, ele chega à conclusão de que é inapto para ser ser humano. Desqualificado como ser humano.

É muito forte, e não é para todos. Eu senti cada nuance do personagem, e foi triste me identificar com várias delas — como se eu estivesse de frente para um espelho. E imagino que a maioria de nós se sinta como Yozo em algum momento da vida. Mas imagine carregar essa etiqueta de “desqualificado” de forma permanente.

Ok, isso também pode ser uma crença e, como tal, pode ser alterada, substituída. Mas eu me vejo tendo um ímã para o que sei que não me faz bem. Minha mente é trágica e pessimista em vários aspectos. Eu sei o que é viver em depressão. Não é viver — é existir. É ser inválido para a sociedade, e até para a própria família. É como se o seu valor fosse medido pelo que você pode oferecer, porque nada é de graça.

E é como o Yozo diz: a sociedade é feita de indivíduos, e é uma luta entre um e outro — até os escravos tiveram seus momentos de luta.

Eu não gosto de permanecer em ruminações tão densas, mas foi isso que essa história me despertou.

Recomendo, mas com ressalvas. É um livro extremamente bem escrito, porém muito forte e pesado, justamente por ser tão cru e real.

u/Ewer1111 — 12 days ago
▲ 3 r/Livros

Sinopse retirada da página do livro na Amazon:

Christine acorda numa cama estranha, ao lado de um homem com uma aliança no dedo. Sua primeira reação é pensar que se envolveu com um homem casado na noite anterior. Enquanto se esforça para lembrar o que aconteceu, pensando numa provável esposa traída, ela finalmente se olha no espelho. E não reconhece o reflexo. Pelo menos vinte anos mais velho do que esperava encontrar.

Então o homem lhe revela algo perturbador: todos os dias, sua memória se apaga sempre que ela dorme. O estranho, seu marido Ben, é obrigado a recontar a vida deles todas as manhãs. Encorajada por seu médico, ela começa a escrever um diário para ajudá-la a recuperar suas lembranças. Certa manhã, ela o abre e se depara com quatro palavras assustadoras: “Não confie em Ben”. E passa a se perguntar... Que acidente a fez ficar assim? Em quem ela pode confiar?

Alguém já leu? É aquele típico thriller cheio de conveniências e furos óbvios, mas que não chega a ser um desastre total. Eu gosto da ideia e de boa parte da construção narrativa, mas o problema é que se perde e acaba se agarrando às conveniências. Em vários momentos, senti que o autor insultou minha inteligência. Por mais debilitante que seja o estado da protagonista, ela ainda descobre um monte de coisas sozinha e com a ajuda do doutor que a trata — menos justamente o que está bem diante do nariz dela.

Enfim, terminei o livro recentemente e minha nota é 5. Encontrei mais lógica na adaptação; achei que a história ficou melhor amarrada, embora os furos ainda estejam ali. E tudo acontece muito rápido. Mas a Nicole Kidman está muito bem como Christine Lucas. Nota 6 pro filme.

reddit.com
u/Ewer1111 — 14 days ago

Depois de um mês, esse livro ainda ronda minha mente. Eu não tinha tido essa percepção sobre a capa até ontem. Quero muito saber se isso meio que "fecha as contas" pra mais alguém.

Eu estava conversando com um cara sobre Verity, e me veio uma interpretação que eu nunca tinha pensado antes — o que me fez ser ainda mais do “time carta”.

Pra mim, quem entendeu a capa, entendeu tudo. A rede não representa apenas o momento em que a menina ficou presa ao se afogar, mas também simboliza a armadilha em que a Low e a Verity caíram — a armadilha do Jeremy. Ele é um caçador nato. Na capa, é possível perceber duas mulheres: a Low e a Verity, ambas presas nessa rede. Isso faz bastante sentido. Então, sim, sou do time carta.

Pensando nisso, dá pra ligar com alguns acontecimentos da história. Algumas coisas do manuscrito podem ser verdadeiras, como o encontro entre Jeremy e Verity. Ele já a queria desde o início, de certa forma “pescou” ela. Com a Low, aconteceu algo semelhante — só que, no caso dela, só no final ela percebeu onde havia se colocado.

Jeremy pode ser visto como alguém manipulador, que atrai, envolve e depois descarta. Nesse sentido, a Low acabou dando um tiro no próprio pé ao destruir a carta, ficando presa a ele de forma definitiva.

Sobre o filho, o fato de ele apresentar problemas pode indicar que herdou traços do pai, sugerindo que pode seguir um caminho parecido.

Claro, existem alguns furos na história. Ainda assim, dá pra interpretar que a Verity, sendo uma escritora extremamente dedicada e obcecada pelo trabalho, mergulhou completamente na técnica sugerida pela editora. Isso teria sido, de certa forma, um modo de lidar com o luto — ainda que de forma mórbida.

Já o Jeremy, por outro lado, não conseguiu processar o luto pela morte das filhas. Ele teria enlouquecido, mas de maneira calculada: pesquisou sobre a Low, mentiu para ela em diversos momentos e arquitetou tudo para atraí-la.

u/Ewer1111 — 19 days ago