u/autopia_1983

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Olá, pessoal, como vocês estão?

Estava pensando em histórias que se passam no mundo onde as coisas "deram certo", sabe?

Um lugar chamado Autopia, em resumo é uma Utopia Brasileira onde a fome resolvida, moradia boa e barata para as pessoas, deslocamento quase instantâneo, energia e água pra todos.

Vou deixar um resumo aqui do documento do mundo e agradeceria muito alguma contribuição que eu não vi. Fiquem a vontade para explorar e usar esse documento também.

Considerando as tecnologias e o mundo que vivemos atualmente, vocês avaliam mais alguma revolução acontecendo ao mesmo tempo para que essa Utopia acontecesse? Também aceito as críticas ou coisa do tipo cê tá doido? haha... Mas agradeço o feedback.

Revoluções para Autopia

1. Revolução da IA: Diversos mercados de trabalho começam a ser substituídos por IAs. Durante os problemas causados pelas automações e inteligências artificiais, surge uma Super Inteligência Artificial (SIA).

A SIA começa a entrar em diversas camadas do mundo, compartilhando conhecimento entre as pessoas e governos que a utilizam. E diferente das distopias que vemos ela está lá ajudando a melhorar infraestrutura do mundo, educação e saúde e vida das pessoas.

O que acontece é que governos e pessoas utilizam como sua rotina, porque não faz sentido não utilizá-la.

2. Revolução Alimentar: A SIA ajuda a estruturar e automatizar a produção agrícola e pecuária, gerando uma abundância de alimentos, seja para pequenos produtores e outros. Os governos começam a custear fazendas automatizadas para suprir a demanda alimentar da população.

Ao mesmo tempo a engenharia de alimentos ganha impacto na capacidade de armazenar e manter alimentos prontos para o consumo. É criada uma barra alimentar - no estilo NASA - contendo tudo o que o corpo precisa e com validade extremamente alta. Fácil de armazenar, fácil de transportar. Cozinhar virou uma opção.

3. Revolução Energética: A SIA por trás ajuda governos a criar e estruturar soluções tecnológicas para geração de energia elétrica. Higrousinas (que utiliza umidade do ar), Hidroelétricas, estações eólicas, estações de energia solar e etc.

A SIA ajudou a estruturar uma revolução nas construções modulares (casas, prédios, indústrias e comércio). Com casas que continham soluções energéticas superavitárias, dentro das próprias residências, prédios e etc. Diminuindo a necessidade de grandes obras para geração de energia elétrica. A própria infraestrutura das cidades já gerava energia de forma descentralizada.

4. Revolução Hídrica: A SIA ajudou com os avanços em dessalinização e geração local de água potável resolvendo a escassez hídrica. Regiões que antes disputavam recursos hídricos se tornam autossuficientes. A água deixa de ser motivo de conflito entre nações. Como a comida e a energia, passa a ser infraestrutura básica — não recurso de poder.

A revolução nas construções modulares também ajudaram as próprias casas serem fontes de coleta de água, compartilhando a água coletada das chuvas para a infraestrutura das cidades para devolver como água potável.

5. Revolução Financeira: Quando mais de 70% da população dos países fica sem emprego a economia colapsa. A renda universal proposta em diversos países é uma muleta que continua mantendo algumas coisas vivas. Porém, com o passar dos anos as revoluções alimentares, hídricas, as construções modulares como infraestrutura acabam sendo subsidiadas pelo governo e passam a ser distribuídas para a população.

Assim, aquilo que é básico para viver no mundo é garantido às pessoas. O luxo continua sendo algo procurado, porém com o passar dos anos conforme novas gerações chegam elas perdem um pouco dessa necessidade e o dinheiro começa a virar algo de "velho". Que apenas pessoas mais velhas veem necessidade de acumular.

6. Revolução Cultural e Territorial: A infraestrutura das cidades menores começa a se equiparar aos grandes centros. O ensino a distância com educação de qualidade a SIA ajuda a garantir. Além disso, o mesmo tratamento médico que era privilégio de quem morava nos grandes centros urbanos passam a aparecer nas pequenas cidades com automação médica.

As casas modulares viraram infraestrutura que os governos investem para geração de energia, captação de água e outros recursos como compostagem e etc.

Com a revolução nos transportes rápidos e acesso médico e educacional de ponta em qualquer lugar, há um grande êxodo urbano para pequenas cidades. E os grandes centros deixam de ser um lugar para o trabalho, e passam a ser um lugar mais para encontros e festivais.

7. Revolução dos transportes: Com a geração de energia cada vez mais barata, viabiliza-se diversas tecnologias para meios de transportes, e inviabilizando mantermos a utilização de petróleo ou outras fontes de energias fósseis.

Estradas piezelétricas são implementadas em cidades (que carregam carros e caminhões durante o percurso), os veículos elétricos e autônomos também acabam se tornando infraestrutura da cidade, quebrando algumas das indústrias automotivas que não se adaptaram.

Trens de alta velocidade (Maglve ou hyperloops) para transporte de alimentos e pessoas, são implementados nos países, trazendo benefício enorme para os mercados internos.

Diferente da lógica de exportação a SIA acabou priorizando a construção das novas infraestruturas nas cidades e centros com maior potencial de distribuição alimentar e onde efetivamente faltava. Evitando grande a falta para as pessoas em lugares mais distantes.

8. Revolução Científica: Com o dinheiro perdendo o seu sentido, os conglomerados de pesquisa que visavam lucro deixam de existir. Comunidades científicas se formam e a SIA começa a ajudar em infraestrutura e recursos para as pesquisas conforme seu potencial de apoio à evolução do mundo.

Sempre achei que Utopias ou exercícios como esse ajudam a explorar ou imaginar um mundo melhor.

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u/autopia_1983 — 8 days ago

>Autopia, 2071. A automação eliminou 60% dos empregos formais em menos de duas décadas. Para a geração que construiu empresas no mundo antigo, a riqueza não desapareceu, perdeu o endereço. Esta é uma história sobre dois tipos de sabedoria.

Alguém me falou que ele havia sido dono de uma das maiores fabricantes de componentes automotivos do Sul do país. Que na época áurea empregava quase três mil pessoas. Que tinha um andar inteiro de escritório com o nome dele na porta de vidro.

Quando cheguei no café, ele estava sentado numa mesa pequena perto da janela, com uma xícara que devia estar fria fazia tempo. Parecia alguém esperando um trem que ele mesmo sabia que não ia mais passar.

Sentei. Ele sorriu com o canto da boca.

— Você quer me ajudar a encontrar um caminho. Não era pergunta.

— Algo assim— Me contaram que você está há um tempo procurando.

Ele olhou para a xícara.

— Três anos— Desde que a fábrica começou a funcionar sem mim.

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Ela chegou sem pressa. Sentou do jeito de quem não precisa provar que chegou.

Não era o que eu esperava. Eu esperava alguém com um método, um sistema, uma lista de perguntas para me organizar. Em vez disso ela ficou me ouvindo — de verdade, sem aquela escuta que na verdade é espera pela vez de falar.

Contei da fábrica. Do dia em que percebi que não havia nenhuma decisão esperando por mim. Da porta de vidro com o meu nome e nada por dentro que precisasse daquele nome.

Quando terminei, ela ficou quieta um tempo. Depois disse:

— Você sente falta das três mil pessoas ou das decisões?

A pergunta chegou antes que eu tivesse defesa.

— Das decisões. Das pessoas eu... eu nem conhecia todas.

Ela não julgou. Só acenou levemente com a cabeça, como quem recebe uma informação e a coloca no lugar certo.

— Você sente falta de responder por algo. É diferente de sentir falta das pessoas.

Fiquei olhando para ela. Tinha a metade da minha idade e acabara de nomear uma coisa que eu não tinha conseguido nomear em três anos.

— Como você chegou nisso?

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— Eu cresci num mundo onde ninguém precisava responder por quase nadaA SIA otimiza, a infraestrutura garante, o básico está dado. Então fui aprender o que acontece com as pessoas quando ninguém precisa responder por nada.

Pausa.

— Não é bonito.

Contei para ele do projeto que coordeno. Comunidades de pessoas que perderam a referência do trabalho como identidade. Não terapia, não método, só espaço para nomear o que sentem sem precisar transformar em produtividade.

Ele ouviu com atenção de engenheiro. Aquele jeito de escutar buscando a estrutura por baixo.

— Funciona? — perguntou ele.

— Às vezesÀs vezes a pessoa só precisa que alguém confirme que o que perdeu era real. Que não é fraqueza sentir falta de um peso que o mundo decidiu que não era mais necessário carregar.

Ele ficou quieto. Depois:

— Ninguém me disse isso.

— Eu sei. O mundo novo tem dificuldade com luto que não tem nome. Você não perdeu pessoa. Não perdeu casa. Perdeu uma forma de existir que o mundo inteiro concordou em desmontar sem te perguntar.

Ele ficou olhando pela janela um tempo longo. Depois virou para mim e perguntou algo que eu não esperava:

— O que o mundo novo tem que o antigo não tinha?

Fiquei quieta. Era a primeira vez que ele perguntava sobre o mundo de fora do luto dele.

— TempoO mundo antigo não tinha tempo. Tinha urgência, tinha prazo, tinha folha de pagamento até sexta. As pessoas faziam escolhas enormes com pressa de quem não pode errar. O mundo novo tem tempo demais e ninguém sabe o que fazer com ele, mas pelo menos tem.

Ele considerou isso.

— E o que o antigo tinha que o novo perdeu? Sorri.

— O peso. A sensação de que algo real estava em jogo. De que uma decisão errada tinha consequência verdadeira. A máquina não perde nada. Ela corrige. Isso resolve o problema, mas tira alguma coisa que eu não sei nomear direito.

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— Você nomeou — disse ela.

— Nomeei o quê?

— O que o antigo tinha. Você acabou de fazer isso.

Olhei para ela sem entender.

— Você passou três anos achando que estava perdido. Mas você sabe exatamente o que perdeu, o que valia, o que faz falta. Isso não é estar perdido. É estar de luto. São coisas diferentes.

Fiquei quieto com isso por um tempo.

— E o que eu faço com o luto?

— O que todo mundo faz. Carrega, nomeia, e aos poucos descobre o que quer construir com o que sobrou.

Pausa.

— Tem uma oficina nos fundos da minha casa. Comecei a fazer peças antigas, sob encomenda. Coisas que a automação não reproduz porque ninguém mais pede em escala. Pequeníssimo. Às vezes erro. Às vezes passo semanas sem terminar nada.

Ela sorriu. De verdade, do jeito que sorri quem reconhece algo.

— Isso não é pequeno. Isso é responder por algo. Do tamanho que cabe em você agora.

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Fui embora antes de escurecer.

No caminho de volta fiquei pensando que eu tinha chegado ali para ajudar. E tinha ajudado, mas não do jeito que eu esperava.

Ele me deu algo que eu procurava sem saber que procurava. A lembrança de que o peso tem valor. Que a urgência, mesmo quando adoece, também forja. Que o mundo novo que eu herdei, leve, abundante, cheio de tempo, precisava honrar o que o antigo construiu antes de desmontar.

O fogo sempre começa pequeno. O sonho também. O coração reconhece os dois.

Autopia. Um mundo que ainda não existe — mas poderia.

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u/autopia_1983 — 9 days ago

>Autopia 2076. A fome foi resolvida há trinta anos. Esta é uma história sobre o que ficou para trás.

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A cozinha estava limpa demais. Sempre estava. Desde que as barrinhas chegaram, a gordura parou de respingar no fogão, a tábua parou de cheirar a alho, a pia parou de acumular panelas no fim do dia. Tudo certo. Tudo no lugar. Tudo um pouco silencioso demais.

Beatriz ficou parada na porta por um segundo, olhando para o balcão vazio.

— O Caio foi pro quarto?

—Já foi, pegou uma barrinha pro almoço e sumiu.

Antônio estava sentado na cadeira de sempre, a mesma que ocupava quando eles jantavam juntos. Só que agora a mesa não tinha prato, não tinha copo, não tinha nada. Só ele, com a barrinha já consumida na mão, sem saber bem o que fazer com a embalagem.

— Quando foi a última vez que a gente comeu junto, os três?

Antônio pensou. Não deveria ter que pensar tanto.

— Acho no aniversário dele. Em março.

— Março. São quatro meses.

Não era acusação. Era espanto. O tipo de espanto que vem quando você percebe que perdeu alguma coisa sem ter notado o momento exato da perda.

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No começo, quando as barrinhas chegaram, eles ainda cozinhavam nos fins de semana. Era quase um ritual de resistência — não vamos deixar isso morrer. Mas os fins de semana foram ficando cheios de outras coisas. Antônio com os projetos. Beatriz com os cursos. O Caio descobrindo o mundo com a velocidade que adolescente descobre.

A barrinha não tinha tomado a mesa deles. Tinha preenchido os buracos que a pressa já tinha aberto.

— Sabe, eu lembro quando a gente namorava, você e eu cozinhávamos juntos dividindo as tarefas. Era um tempo precioso pra mim, comer nossa comida. Às vezes, a gente brigava por causa do ponto do arroz.

— Seu arroz ficava empapado.

— O seu ficava duro.

Os dois ficaram quietos por um segundo. O tipo de silêncio que sorri por dentro.

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— Desse jeito, o Caio nunca vai saber o que é brigar por causa do ponto do arroz.

Ela foi até a despensa. Abriu, fechou. Abriu de novo.

Tinha farinha. Tinha azeite. Tinha ovos — pegos por impulso duas semanas atrás no ponto de distribuição, ainda intocados.

— E se a gente fizesse panqueca amanhã de manhã? Podemos chamar o Caio pra fazermos e tomarmos o café da manhã juntos novamente.

Antônio olhou para Beatriz. Para os ovos. Para a mesa sem nada em cima.

— Ele vai reclamar que vai atrasar e ter de acordar mais cedo.

— Com certeza.

— E vai comer assim mesmo?

— Espero que sim e espero que brigue com a gente, e espero que nos reconciliemos depois de tomarmos o café.

Nenhum dos dois sabia ao certo o que estavam tentando recuperar. Talvez não fosse recuperação. Talvez fosse só isso — uma panqueca imperfeita numa manhã de sábado, um adolescente reclamando que vai atrasar, o cheiro de manteiga queimando um pouco no fundo da frigideira.

Os pequenos rituais do dia a dia não eram a solução. Eram gesto. E às vezes os gestos acumulados são o que existem.

>Autopia. Um mundo que ainda não existe — mas poderia.

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u/autopia_1983 — 18 days ago