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CASO 7: detalhes éticos: o atestado

1o Ato: o atestado

Segunda feira, 8:00 da manhã, e o posto de saúde está lotado, como sempre.

Entre os vários atendimentos do dia, mais um rotineiro e sem importância: um homem com cerca de 50 anos de idade está se queixando de dor de cabeça e vômitos, e diz que não conseguiu trabalhar, precisa do atestado.

Alguma coisa te chama atenção no caso:

Os olhos injetados, a face pletórica, a fala um pouco arrastada, e um hálito típico...

A aparência e os sinais clínicos de um alcoólatra. Então, o caso é o seguinte: ele bebe demais, exagerou no final de semana e está com uma ressaca daquelas.

Como bom MFC, você sabe que por trás daquele atendimento há muita coisa a mais a se fazer.

Revisa o prontuário do homem, e vê que ele é muito ausente do posto de saúde. O último atendimento foi há meses atrás, alguma coisa corriqueira.

Ebtão, aprofunda a anamnese, com cuidado. Você sabe que terá que construir um vínculo, para depois abordar de forma inicial e delicada o alcoolismo. Um passo em falso, e pode perder o paciente para sempre.

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Você trabalha com quê?

_ eu sou motorista de ônibus.

Transporte coletivo da prefeitura?

_ não, eu transporto trabalhadores. eu circulo com eles na área de mineração.

Ah, entendi. Eu sempre tive vontade de entrar na área da mineração, deve ser interessante. Tem uns caminhões enormes lá.

_ é mesmo. é muito perigoso rodar de ônibus lá porque as estradas são estreitas, e tem muito barranco. Quando eu estou vomitando muito, eu fico muito tonto e fico com medo de dirigir lá.

Entendi. Eu estou fazendo uma revisão do seu prontuário, e vi também que a sua pressão está mais alta... isso é perigoso, porque causa muita tonteira.

_ é mesmo

Eu vou fazer o seguinte: o senhor não pode trabalhar com essa tonteira. Eu preciso verificar melhor sobre essa pressão alta. Eu vou te pedir alguns exames e você vai trazer para mim. Vou te dar um atestado de 15 dias, assim teremos tempo para o senhor melhorar e eu cuidar disso. O que o senhor acha?

_para mim vai ser ótimo. Mas será que 15 dias não é muito?

Não se preocupe, eu acho importante a gente fazer isso. Eu estou muito preocupado com o senhor.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Durante o atendimento, percebe o risco que o paciente alcoólatra está colocando a si mesmo e a vários outros funcionários. Portanto, afastar do trabalho não é uma questão apenas da saúde dele, ou da problemática do atestado de uma única pessoa. É também um dever ético, porque você precisa atuar para proteger a segurança de outras pessoas.

Não o é um atestado para cefaleia e vômitos, apenas. É um atestado para alcoolismo. Por isso deve ter uma duração maior, já que é uma condição limitante, de longa duração e crônica e existe a necessidade de uma assistência mas bem estruturada. ou seja: o atestado tem uma justificativa técnica e ética plausível.

É complicado manejar a doença de um paciente, os seus direitos a tratamento à saúde, e os interesses do patrão, nesses casos. Se o patrão fica sabendo que ele é alcoólatra, a coisa pode piorar muito: ele será demitido, e com depressão e alcoolismo o paciente pode afundar de vez. .

Se você der um atestado apenas de um dia, não vai começar a cuidar de fato do paciente. Imagine se uma tragédia com o ônibus dos trabalhadores acontecer na mina? Você, como médico, precisa tomar atitudes para tentar evitar isso.

Na região, pelas regras da medicina do trabalho, quando o paciente recebe um atestado de mais de 10 dias obrigatoriamente ele tem que passar por um exame de retorno ao trabalho com o médico responsável. É por isso que você dá um atestado maior do que 10 dias: para forçar um exame de retorno ao trabalho, pela equipe de saúde do trabalhador, que precisará então identificar a questão e trabalhar para tomar as medidas cabíveis.

Ora, no mínimo o colega vai se perguntar porque houve um atestado tão longo.

No atestado, os CIDs que são sugestivos de intoxicação alcoólica, sem ser algo explícito. Fica com a esperança de que o colega vai perceber e vai tomar as medidas necessárias.

Talvez ele até entre em contato com você para entender o que está acontecendo, então as coisas serão mais fáceis. Por isso, você deixa o seu telefone de contato no documento...

Uma discussão de médico para médico, sem quebrar o sigilo e expor o paciente... talvez até tentar um afastamento pelo INSS, encaminhar o paciente para o CAPs, e para serviços adicionais de tratamento do alcoolismo.

Você encerra o atendimento, e mergulha na rotina da UBS... logo você se esquece do caso, e se passam algumas semanas...

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2o Ato: o telefonema

Em um dia qualquer, a recepção cheia, um paciente sentado à sua frente - a enfermeira bate, na porta do seu consultório. Diz que é urgente.

Ela disse que um certo Doutor fulano, médico do trabalho, quer conversar com você, e que ele está alterado.

Você acha estranho, mas vai atender o telefone. Fica na recepção, bem na frente das cadeiras de espera.

Um senhor educado, porém muito firme nas palavras. A conversa está um pouco acima do tom, mas ele não é desrespeitoso. Começa a conversar com você. cita o nome de um paciente, e quer saber porque você fez um atestado de 15 dias. Você não se lembra do caso. Explica para a pessoa do outro lado da linha, que é muito rigoroso com atestado, e que deveria haver um motivo muito específico para um atestado tão longo.

Diz que vai rever o prontuário, e que voltarão a conversar. Um novo telefonema será feito no dia seguinte.

No posto de saúde, um silêncio pesado. O restante da equipe olha para você de soslaio. De alguma forma o assunto vazou e as pessoas estão desconfiando da sua integridade como médico. Alguém o está acusando de ter oferecido um atestado falso ...

Esclarecendo: quando a recepcionista atendeu o telefone, ela falou em voz alta sobre o atestado. Disse que para esclarecer o motivo, somente conversando com você, e é por isso que você foi chamado no consultório. A pessoa no telefone a tratou mal, e ela respondeu aos gritos...

Que saco. A equipe não sabe mesmo trabalhar com assunto sensíveis.

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3o Ato: o prontuário

Para entender a situação, você busca o prontuário do paciente. Está tudo lá, bem anotado: cerca de um mês atrás, você atendeu um rapaz com sintomas de intoxicação alcoólica, e deu um atestado mais longo porque ele tem um trabalho de risco.

O telefone toca e você é chamado novamente. Porém, sabendo da confusão na recepção do dia anterior, você tem pensamentos: quem garante que essa pessoa do outro lado da linha é realmente o médico do trabalho? E se ele for o dono da empresa, ou qualquer outra pessoa buscando uma informação sigilosa?

Durante o telefonema, o tom agora é outro, ríspido. Você toma todo o cuidado, e a pessoa insiste em saber detalhes. Você se esquiva, diz que o atestado está completo e que tem todas as informações nele. A conversa sobe de tom: a pessoa do outro lado te acusa de ter feito vários atestados para o mesmo funcionário nos últimos meses, e que por isso você será investigado e processado. Você se mantém firme: informa que qualquer médico tem acesso ao prontuário do paciente, bastando para isso comparecer na unidade e fazer a solicitação. Está tudo escrito lá. Porém, como você não pode ter certeza de que está falando com o médico, não pode revelar mais detalhes, pois está protegendo o sigilo do paciente e seus direitos trabalhistas. Reforça: todos os atestados foram feitos de forma ética, e que esse paciente precisa de um tratamento de saúde, por isso o atestado mais longo.

Você não dá mais detalhes, e a ligação termina com ameaças e xingamentos do outro lado.

Revisa novamente o prontuário: em um ano e meio o paciente esteve no consultório quatro vezes, incluindo esta última. A penúltima vez tinha mais de 4 meses: uma diarreia, numa segunda-feira.

Numa outra vez: veio pedindo exame de rotina, numa segunda-feira.

E a primeira vez, há um ano e meio atrás: estava com vômitos e diarreia. Também numa segunda-feira.

Conclui que o paciente tem um padrão de comportamento com a bebida, é de fato um alcoólatra, mas que isso estava passando despercebido até o atendimento mais recente.

Pede ao agente de saúde para fazer busca ativa. Porém, o paciente não comparece para novos atendimentos. Como ele é um trabalhador na cidade vizinha e já está marcado na empresa por ter pego vários atestados, ele alega que não pode retornar para atendimento pois não pode mais faltar...

Esta é uma frustração recorrente nos serviços de atenção primária à saúde: as limitações assistenciais para atender casos potencialmente graves.

Entre vários erros: os horários das unidades básicas de saúde não atendem às necessidades do trabalhador.

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4o Ato: reflexões anti socialistas

O SUS, como todo sistema socialista, diz que é organizado para atender a população, mas na verdade é organizado para atender a conveniência dos funcionários e do Estado.

Você já tentou várias vezes estender o horário da sua unidade, e nas reuniões propôs atendimento também aos sábados. Mas o estatuto dos servidor da cidade e o sindicato dos trabalhadores da prefeitura não permite: são extremamente restritivos com o horário de trabalho, impedindo extensão e outras atividades. Inclusive, é muito difícil que a prefeitura aprove até campanhas de vacinação nos finais de semana por causa dessas leis municipais...

Ao fim, e ao cabo: o socialismo é uma máquina de moer o trabalhador. Tem uma aparência bonitinha, mas as suas engrenagens vivem de moer gente.

A cidade é rica, tem uma estrutura enorme e invejável de APS, mas é proibido atendimento noturno ou no sábado.

Para o trabalhador, qualquer atendimento obrigatoriamente gerará um atestado e posteriormente uma perseguição na empresa.

Imaginem um homem diabético pegar 12 atestados no ano, três a cada três meses (a consulta, fazer os exames no laboratório, e entregar os resultados - três atestados para cada atendimento de controle do diabetes). Estamos falando de um homem de meia idade com a empregabilidade menor, e com risco social muito mais forte, caso seja demitido.

O mesmo para um homem hipertenso. Essas duas condições atingem até 30% da população entre 45 e 60 anos de idade, que continuam trabalhando- muito.

Ou seja: o serviço não prioriza o atendimento daquelas condições que ele mesmo disse que são prioritárias...

Não é capaz de realmente atender a população, mas vive de produzir números e burocracia para preenchimento, que ocupa boa parte das horas trabalhadas. É uma estupidez!!!!

Vejam por exemplo o caso das mulheres: uma mulher com um bebê, que tem que levar a criança para vacinar várias vezes, entre os 4 meses (ao fim da licença matenidade) e os dois anos de idade....

A empregabilidade das mulheres é duramente atingida pela estupidez na organização dos serviços de saúde.

Uma mulher jovem, recém-casada, tem grandes chances de engravidar, e depois de cuidar do bebê.

Contando a gravidez, e o período pós- licença maternidade: em 8 meses de pré-natal, provavelmente serão 12 - 15 atestados (consultas e exames). Depois, com bebê pequeno, teremos atestados da puericultura, os atestados da vacinação, e os atestados das condições agudas do bebê: cólicas, IVVAS, diarréia, etc. A mulher jovem em um relacionamento conjugal, se transforma numa funcionária com risco de pegar 30 - 40 atestados em três anos, além de uma licença maternidade de quatro meses...

Tudo isso porque o sistema de saúde é incompetente em colocar a mulher e as crianças como prioridade no serviço.

Não funciona.

O SUS é estruturado na ideologia socialista, e não nas necessidades reais de saúde.

Trabalhei em APS pública por 15 anos e trabalho em APS privada.

Os horários noturnos de atendimento e o sábado ficam lotados dos trabalhadores que não querem faltar ao trabalho para cuidar da saúde....

A história mostra o socialismo não funciona, e qualquer coisa que seja estruturada na ideologia socialista não funciona. Porque é um sistema estruturado em premissas completamente distorcidas e irreais.

PS: essa cidade tem um excelente plano de carreira, concurso, e é famosa pelas "emendas de feriados" que a prefeitura costuma conceder aos servidores - por exemplo, uma semana entre o natal e o ano novo, todos os anos. Os funcionários ADORAM. E a APS completamente fechada entre o natal e o ano novo!!!! Pensem na falta de assistência da população nesse período!!!!

O sindicalismo é fortemente atuante na região, e por isso os salários dos funcionários são bem diferenciados e mais altos. Todo ano eles fazem greve para conseguir a recomposição inflacionária no salário, e sempre conseguem.

Eles são estridentes em lutar pelos direitos dos funcionários do estado, e fecham os olhos para os direitos da população.

Socialismo + Sindicalismo, a receita do fracasso.

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u/antiwoke1971 — 1 day ago

Caso 6: detalhes éticos - O CACHORRO

Depois de muitos anos de trabalho duro você consegue agendar férias numa praia paradisíaca com a sua família.

Você também leva o seu cachorrinho querido, o dodói das crianças.

Um segundo de distração, e o cachorro é puxado pelas ondas para o fundo do mar e começa a se afogar.

Assim que você se levanta para tomar alguma atitude, você ouve, não muito distante do cachorro, um homem gritando por socorro, porque também está se afogando.

Você precisa tomar uma atitude, e em uma fração de segundo você tem que ter uma prioridade:

~~~~~~~~~~~~~~~~~

Qual é a sua prioridade: fazer algo para salvar o homem estranho, ou fazer algo para salvar o seu cachorrinho querido?

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Você pode correr atrás de uma bóia, ou de uma corda. Você pode ligar para o SAMU ou para os bombeiros.

Você também pode gritar e reunir as pessoas e apontar a situação.

Ou ainda você pode pular na água para tentar salvar um dos dois.

Sempre, sempre, haverá uma prioridade: para quem você joga a bóia primeiro? Ao reunir as pessoas, você fala primeiro do homem que está se afogando, ou do cachorro?

Na sua mente, alguém está em primeiro lugar.

QUEM? O homem, ou seu cachorro?

Numa sociedade livre, teoricamente você pode sentir e priorizar quem você quiser.

Mas...

O que a sociedade espera do médico?

Pode um médico priorizar um cachorro, ao invés de uma pessoa? Mesmo sendo um cachorrinho "da família"?

A sociedade liberal pode até apoiar que as pessoas sejam livres para escolher e considerar os cães seres sencientes e membros da família.

Também pode apoiar que as pessoas, diante desse dilema moral, tenham a possibilidade de escolher o cachorro.

Porém, isso não é eticamente permitido ao médico. O médico não é livre para escolher o que quiser neste dilema.

O MÉDICO PRECISA PRIORIZAR SEMPRE A PESSOA, O ESTRANHO, A VIDA HUMANA.

ok, se você ainda é estudante e não aprendeu isso até hoje.

Eu não estou falando de moral, de senso comum. Eu estou falando de regra, que você aprende. Essa é a diferença de moral para ética. a moral é formada pelos sentimentos gerais das pessoas (e por isso muitas pessoas amorosas com seus cães, os escolheriam primeiro). A ética nasce da moral, mas é moldada por regras e leis.

Assim como você tem que treinar a sua mente para seguir os passos corretos da lavagem de mãos antes de uma cirurgia, você também precisa treinar a sua mente para fazer as escolhas éticas corretas, priorizando a vida humana.

Mesmo que o seu coração originalmente tenha algum outro tipo de sentimento, este será lapidado pela ética médica, porque a sociedade precisa de alguém que priorize os doentes e os vulneráveis, sobre qualquer coisa.

E dentro do sistema de saúde, quem tem essa missão é o médico.

imagine uma outra situação que também envolva esse dilema:

Você está escalado para um plantão de pediatria, e você é o único plantonista dessa especialidade. Segunda-feira de manhã, costuma estar lotado de crianças doentes e sofrendo.

Porém, ao acordar de manhã, você percebe que o seu (filho/cachorro) está muito doente e vai precisar de algum atendimento

A única forma de dar esse atendimento será com a sua ausência no plantão

Você falta, liga para coordenação, pede substituição, tenta fazer tudo certinho. Mas você não vai, e as crianças ficam sem atendimento.

Uma criança morre, pois você não foi e não prestou atendimento.

Rola processo...

Diante do juiz: existirá justificativa que te exima da responsabilidade? Se você tiver faltado para socorrer do seu filho, terá o mesmo peso na sua defesa judicial, caso você tenha faltado para socorrer o seu cachorro?

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Este é mais um motivo pelo qual a medicina não é uma profissão como qualquer outra. Quem pensa que a medicina é uma profissão como qualquer outra, pode até saber muita coisa da técnica médica, pode atender bem, pode fazer procedimentos perfeitos. Mas não sabe quase nada da ética médica - e portanto, é um profissional perigoso para os pacientes.

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u/antiwoke1971 — 2 days ago

CASO 5: detalhes éticos: A EQUIMOSE

*Casos hipoteticos, construídos a partir de fragmentos e experiência profissional*

Em seu atendimento normal na unidade de saúde chega uma família trazendo uma criança às 15h, pedindo um encaixe. É uma família conhecida por ser barraqueira e criar problemas, e a irmã está gritando na recepção.

Como você é versado em atendimento a conflitos, você coloca panos quentes, aceita o encaixe e vai atender a família.

A irmã está preocupada porque a criança está com uma mancha roxa bem grande na nádega. Pela inspeção inicial você percebe que a criança tem sobrepeso, e apresenta certas características sexuais secundárias (inclusive levantando a suspeita de puberdade precoce).

Início de desenvolvimento mamário, a obesidade deixa as nádegas proeminentes e a menina já tem um comportamento mais sexualizado

Uma extensa mácula geográfica purpúrica ocupa as duas nádegas da menina.

Imediatamente, você faz um inventário mental do seu conhecimento a respeito dessas equimoses. Estatisticamente, as causas mais frequentes são traumatismos.

A família nega com veemencia que a criança tenha caído. Pela localização da mácula você pensa que talvez a menina tenha recebido algumas palmadas. Mas se a família nega...

Quem poderia ter manipulado as nádegas da menina?

De fato, a mácula tem uma aparência estranha. embora extensa, não há outros sinais típicos de contusão, como a infiltração da pele, e o halo eritematoso.

Mesmo assim, você faz contato com serviço social, e solicita a presença da mãe para atendimento.

Durante a consulta com ela, você pergunta para mãe (de forma treinada, delicada e empática) a possibilidade da criança ter sofrido algum tipo de violência ou abuso por algum familiar, ou pessoa própria da família. A mãe fica indignada, te ofende e deixa o consultório com a criança.

Você pede a equipe para monitorar o caso, pede para que a assistência social acompanhe, e ao mesmo tempo solicita um hemograma. Aquela mácula está bem estranha.

Passados alguns dias, a agente de saúde te mostra o resultado: a criança está com a contagem de plaquetas de 37.000. Com a suspeita de púrpura trombocitopênica, você telefona para a secretária de saúde, e solicita atendimento de urgência com a hematologia.

Os anos passam, e você se esquece do caso. Anos depois você fica sabendo que aquela família ainda te odeia com todas as forças, pois você sugeriu que a filha poderia ter sido abusada por um parente: um outro familiar precisa novamente de encaixe, e a família faz jud a fama de barraqueira: ele te ofende na recepção, aos gritos, "jogando na sua cara" essa história, para todo mundo ouvir...

Por curiosidade, você busca entender o que aconteceu.

A menina passou a ser atendida por outro equipe, teve acompanhamento com hematologista. Você ficou com a fama de médico incompetente, e o hematologista é aplaudido por toda a comunidade enquanto você execrado pela sua suposta incompetência e "mente poluída". A criança também foi acompanhada pela pediatria e pela endocrinologia devido suas alterações hormonais.

Repitam comigo: a medicina não é uma profissão como qualquer outra, porque você tem que enfrentar o rojão que muita gente foge correndo...

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u/antiwoke1971 — 3 days ago
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CASO 4: detalhes éticos - A DECLARAÇÃO DE ÓBITO

Você atua em atenção primária saúde, e começa a acompanhar um homem acamado.

Ele foi vítima de trauma crânio encefálico em acidente de trânsito: um motorista bêbado invadiu a contramão e colidiu com a motocicleta que o paciente conduzia.

Ele ficou gravemente enfermo: comprometimento cognitivo, motor, acamado, traqueostomizado e gastrostomizado. A família está buscando Justiça, e o processo está se arrastando no fórum.

Você o acompanha por anos. Sempre está às voltas com as infecções urinárias e as pneumonias aspirativas.

Até que em um quadro infeccioso, ele desenvolve sepse, e morre em casa.

Você estudou um pouco sobre a responsabilidade ética do médico assistente em relação ao óbito, e como preencher a declaração de óbito. Você é o médico assistente que acompanhou o doente nos últimos anos, certo? Então você aprendeu que o médico assistente pode preencher a DO.

A família está muito sofrida após anos de cuidado com esse paciente, além de todo o comprometimento emocional da perda do filho querido.

É importante resolver logo todas essas questões, para que ocorra o enterro, possa entrar em campo o apoio emocional, a família viver o luto rapidamente e tentar superar essa etapa dura da vida.

A ACS responsável chega logo no início da manhã, perguntando se você pode preencher a DO. Você é muito solícito, pois conhece o sofrimento da família. Não tem formulário na sua unidade, você manda buscar na secretaria de Saúde.

Também não tem, mas você sabe que há desses formulários na UPA. Você é instruído buscar lá.

O tempo está passando, a família está ansiosa, a funerária precisa da declaração de óbito para recolher e começar o preparo do corpo, existe uma comoção no bairro, e o vereador está te pressionando para resolver logo o problema.

Conseguido o formulário, você logo faz:

causa mortis:

1) Sepse, 

(secundária a)

2) pneumonia aspirativa 

(secundária a) 

3) disfagia grave 

(secundária a) 

4) sequelas de trauma crânio encefálico 

Outras causas relacionadas:

1) Caquexia

2) comprometimento respiratório por tetraplegia. 

O paciente morreu às 5 da manhã, você pegou o serviço no posto de saúde às 8h e só conseguiu fazer e entregar o documento às 15h. A família está um pouco chateada com toda a situação, mas muito agradecida porque você é bem solícito.

Você deita a cabeça no travesseiro está noite, com coração quentinho por ter feito uma boa ação...

PORÉM...

Você nunca foi um bom aluno, é emocionado, militante pelas causas sociais e não sabe detalhes da sua profissão: durante a faculdade você estava mais preocupado com o DCE, a militância politica e as Atleticas. As aulas de medicina legal eram um porre e você faltou a maioria ...

QUALQUER MORTE, EM QUALQUER TEMPO, CUJA CAUSA BÁSICA EM QUE A SEQUÊNCIA DE EVENTOS CAUSOU O ÓBITO, TENHA SIDO ALGUMA CAUSA EXTERNA (no caso, qualquer trauma, como acidente de trânsito) ENFIM, NESSA CONDIÇÃO A DECLARAÇÃO DE ÓBITO OBRIGATORIAMENTE TEM QUE SER EMITIDA PELO SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO DE ÓBITOS OU PELO INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL.

Não pode ser amitida pelo médico assistente, capisce!!???

Observe:

com uma canetada burra você aliviou a pena do bandido: uma coisa é a lesão corporal, outra coisa é a lesão corporal seguida de morte. Você não sabe preencher DO, médico relapso.

A SUA PROFISSÃO NÃO É UMA PROFISSÃO COMO QUALQUER OUTRA.

COMPORTE-SE DE ACORDO COM A SUA RESPONSABILIDADE..

Você precisa dominar todos os fundamentos técnicos da especialidade em que você atua, mas você também precisa dominar os fundamentos burocráticos. Larga mão de ser preguiçoso e vai estudar.

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u/antiwoke1971 — 3 days ago

CASO 3 - detalhes éticos: o poder da caneta

Você está de plantão em uma UPA qualquer, e atende uma pessoa que se envolveu em confusão e briga, com várias lesões, causadas por arma branca. O perpetrador é pessoa conhecida na comunidade como violento e agressivo, já tendo várias passagens pela polícia - é o "terror do bairro".

A vítima sofreu lesões profundas no tórax e no abdômen, mas está consciente, e apresenta sangramento.

Você faz todas as avaliações, solicita apoio de outros colegas, e o paciente não precisa de cirurgia, apenas de sututas e curativos.

Dois cenários:

cenário 1: o paciente foi admitido com a pressão arterial 110 por 70, frequência cardíaca 98, saturando 95% em ar ambiente, com pulsos amplos, extremidades aquecidas, e boa perfusão.

Cenário 2: o mesmo paciente, com as mesmas lesões, porém foi admitido com a pressão arterial 80 por 40, frequência cardíaca 120, saturação 89%, pele pegajosa, sudorese fria e extremidades frias com pulsos finos.

ENTÃO:

No cenário 1, apesar das lesões o paciente não correu risco de vida. Lesão corporal leve. (ver abaixo). depois de processo e julgamento, o criminoso pode receber penas alternativas.

No cenário 2, ocorreu risco de vida, com choque hemorrágico. O criminoso é condenado por lesão corporal grave, penas mais severas, com início do cumprimento em regime fechado.

Conclusão:

PREENCHA BEM O PRONTUÁRIO P*RRA.

ENTENDA QUE O SEU ATENDIMENTO TEM CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS PARA ALÉM DE SIMPLESMENTE DAR ASSISTÊNCIA AO PACIENTE NA SUA FRENTE.

O bandido será solto, ou o bandido será preso????

O criminoso contumaz pode continuar solto, ou pode ser preso poupando novas vítimas no futuro

>>> qual outra profissão tem a responsabilidade e o poder de pautar as ações do judiciário nessas questões complexas, de segurança pública, violência e etc?

>>> por esses motivos, medicina não é uma profissão como qualquer outra

>>> justamente por causa desse poder, e por causa dessa influência em toda a estrutura da sociedade, é que a medicina é tão assediada e perseguida por diversos grupos políticos.

>>> e é justamente por causa desse poder de influência, que o médico atua como um farol intelectual. O médico precisa entender e reconhecer a influência social do seu trabalho. Ele não consegue fazer isso sendo burro feito uma porteira.

Como médico, seu pensamento influencia a sociedade.

O que o médico pensa sobre a criminalidade e a segurança pública? É neste contexto que os grupos políticos tentam cooptar os médicos e sua influência para se tornarem militantes. E é por isso que os governos socialistas querem tanto poder sobre o futuro da medicina.

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u/antiwoke1971 — 3 days ago
🔥 Hot ▲ 79 r/MedicinaBrasil

CASO 2: detalhes éticos - Quando ser INCOMPETENTE é bom.

​

Uma coisa que se tornará comum para os novos médicos é o trabalho em cidadezinhas. Quando me formei, metade dos municípios do Brasil no tinha médicos. A grande maioria com menos de 10 mil habitantes.

Alguns desses casos apresentados são de situações comuns nesse universo.

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Você trabalha no posto de saúde pequenininho, eram 3 médicos - mas dois saíram. Você fica só por um tempo. Tem que segurar qualquer rojão.

Então, recebe do Delegado uma nomeação para atuar como "perito ad hoc" num caso criminal. Quase não tem crime na cidade....

O caso: Um homem está sendo processado por estupro. Ele era vizinho de uma família muito pobre, de uma mulher viúva com várias crianças. Apesar de anos lá, você nunca tinha ouvido falar dessas famílias.

O homem é tido como "doido" e "retardado" na cidade, "não é normal", como diz a equipe de saúde.

E a família da vítima é "estranha", reclusa, muito pobres - quase não saem na rua e passam fome. São acompanhados pelo serviço social, vivem de doações.

Gente tão pobre e marginalizada que nem frequenta o posto de saúde.

A história: o homem com deficiência mental teria abusado sexualmente de uma menina dos 12 aos 17 anos. Foi denunciando, processo arrastado, o caso tem uns dois anos.

O pedido da perícia:

Cabe ao perito responder aos seguintes quesitos:

"O acusado é portador de doença mental que interfira na sua capacidade de compreensão do crime?"

"O acusado pode ser considerado"imputável"?"

QUE ENRASCADA, MOLEQUE.

O papel na sua frente, um prazo de 15 dias para mandar a resposta, e vc não sabe NADA de psiquiatria forense...

"não sei nada disso"

E se o cara for imputável, mas vc errar no laudo e um estuprador contumaz ficar solto aterrorizando a cidade?

E se for mentalmente incapaz, e um "inocente" ficar trancafiado anos com os piores bandidos?

E se for parcialmente imputável - vc sabe quantificar isso??

NÃO SE ARRISQUE, garoto.

\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~

Conduta:

"Exmo Dr Fulano de tal, Delegado da Comarca de XXXXX"

Em resposta ao documento "Nomeação tal", Ofício no $#@(&$@, de XX/YY/2026,

Declaro me INCOMPETENTE para realizar tal perícia, por não ter conhecimento técnico a respeito. Atuo como CLINICO GERAL, atividade médica não relacionada à Psiquiatria Forense.

Pela especificidade do caso e necessidade de conhecimento profundo a respeito, sugiro que o acusado seja avaliado por PSIQUIATRA FORENSE nessa perícia"

Att

Dr xxxxxxxxxxx

\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~\~

Não se meta a fazer trabalho médico para o qual você não tem COMPETÊNCIA para fazer.

Não tenha melindres de se assumir INCOMPETENTE em uma área - esse é o termo jurídico correto

Ah, isso também vale para responder a ofertas de plantão em Sala Vermelha...

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u/antiwoke1971 — 3 days ago

Detalhes éticos da profissão: a série - Caso 1 - o bêbado

imagine essa situação:

Você está sozinho no hospital de plantão no interior. Começa um certo tumulto na portaria e te chamam para atender um bêbado. Algumas pessoas estão exaltadas, e o paciente é conduzido por dois policiais militares.

Ele sofreu um acidente de trânsito.

Nesse acidente, ele atropelou duas velhinhas muito queridas pelas pessoas. Elas também chegam para o atendimento.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Só escoriações leves.

No final do atendimento, a PM vem com esse pedido:

Eles querem um relatório dizendo que motorista está bêbado, para iniciarem um processo criminal contra ele.

A cidade está muito distante do IML mais próximo, e eles não tem como levá-lo até lá para fazer a perícia e os exames que vão comprovar a embriaguez e o crime de trânsito.

Pois bem:

  1. é vedado ao médico ser assistente e perito de um mesmo paciente em uma mesma situação. Você já atendeu o bêbado, portanto você já é assistente dele. Logo, NÃO PODE fazer um laudo pericial.

  2. na condição de médico assistente, todo o seu compromisso ético é com o paciente. Você não pode fazer um relatório e entregar para terceiros sobre o atendimento, isso é quebra de sigilo. Portanto, você não pode fazer um relatório e entregar para PM.

  3. infelizmente, todo mundo putinho com você: a PM, o recepcionista do hospital, os populares na porta do pronto socorro, o vereador que foi tirar satisfação com você, a família das velhinhas. Deu merda.

Conduta:

a. preencha detalhadamente o prontuário, descrevendo todos os sinais clínicos que corroboram um diagnóstico indireto de embriaguez (caso o processo criminal realize perícia indireta no documento).

b. faça um relatório detalhado da situação, descrevendo todo o quadro clínico do paciente, seus ferimentos, e a condição, E ENTREGUE PARA O PACIENTE. Melhor ainda se ele estiver acompanhado de responsáveis.

c. cumpra sua obrigação ética de informar a ele o que está acontecendo, de que ele é dono do relatório, e que a decisão de ele entregar esse relatório para a PM é dele, e somente dele. Você não tem nada com isso. Reforce a orientação de que você só não entregou o relatório, porque você está protegendo o sigilo dele.

d. informe a PM da sua conduta, e dos motivos de ter feito assim. Não dê nenhuma informação adicional que não seja pública ou notória. O caso vai ser criminalizado, e um bom advogado não só consegue livrar o bandido como ainda vai processar todo mundo e faturar alto com indenização (inclusive você, caso você não entenda os detalhes éticos do que está acontecendo).

e. deixe claro para todos que a sua obrigação como médico plantonista é cuidar da saúde dos acidentados, inclusive do motorista. Qualquer outra necessidade, de qualquer outro campo, não é da sua responsabilidade. O seu papel como médico plantonista foi plenamente cumprido.

Você não tem que tampar o buraco do serviço policial e judiciário. Eles que se virem para cumprir a obrigação deles da melhor forma possível. Se realmente eles precisam processar o cara, que coloquem ele na viatura e faça uma viagem de 250 Km até o IML para conseguir a perícia e toda a documentação necessária.

Você não tem nada com isso.

f. a seu critério: chama o motorista num cantinho, e dê um esporro nele. "Aconselhamento de saúde e prevencão de agravos". Não, não bata nele, não xingue a mãe, nem use palavras de baixo calão. Você é ELITE, lembra? Sabe dar esporro de alto nível.

E, PRINCIPALMENTE, você é elite porque você tem conhecimento e poder para tomar uma decisão impopular, e enfrentar uma cidade inteira. Aliás, você não tem apenas poder, COMO TEM A OBRIGAÇÃO de fazer o certo, não importa quem vai colocar o dedo na sua cara.

A MEDICINA NÃO É UMA PROFISSÃO COMO QUALQUER OUTRA.

Aceitem.

PS: uns dois anos depois, você recebe uma convocação para depor em juízo. Tá rolando o processo do indivíduo.

Você senta na cadeira, o juiz olha nos seus olhos, e pergunta:

DOUTOR, fulano de tal estava embriagado no dia 17 abril de 2024?

Resposta: meritíssimo, estou impedido pelo código de ética de responder a essa pergunta. A minha avaliação técnica está descrita no prontuário do paciente.

DOUTOR, é uma ordem, responda a essa pergunta, eu te eximo de seguir as regras do código de Ética durante esse julgamento

Resposta: meritíssimo, isso não é possível. O sigilo é totalmente inviolável. Como médico, a minha sugestão é que o senhor siga os trâmites normais, solicite o prontuário médico no serviço onde eu trabalhei e o encaminhe para a perícia médica judicial documental e indireta. Lá o senhor terá a resposta que precisa.

DOUTOR, 'teje preso por desacato e por descumprir uma ordem judicial!!!!

Resposta: meritíssimo, eu quero falar com meu advogado.

E ppasse a noite na cadeia, SEU PROFISSIONAL COMO QUALQUER OUTRO.

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u/antiwoke1971 — 4 days ago