u/Fair_Experience8125

Com o fim da última aula, de filosofia Heideggeriana, os alunos saíram estafados, ansiosos pelo almoço. Avançaram com alvoroço, atravessando a porta da sala, que chegou a parecer mais estreita do que de costume.

Todos pareciam ter, naquele começo de tarde, uma clareza inequívoca: a fome, percebida em si e sentida nos outros, deveria ser saciada, ou mostraria o pó de que eram feitos, e que ao pó os devolveria.

Todos, menos um, que, assim como seu professor, arrumava vagarosamente seus pertences.

Professor: Você estava quieto, durante a aula de hoje. Não é do seu feitio.

Aluno: Estava pensando no conceito de "ser-para-a-morte". Achei interessante. Mas Heidegger não parece levá-lo ao limite. Não me parece que ele siga o conceito até o que dele deveria decorrer.

Professor: Em que sentido?

Aluno: Ele fala da finitude como se fosse libertadora. Como se pensar na morte, da qual não podemos escapar, abrisse o caminho para um pensamento autêntico. Não idealizado. Não transcendental. Mas quanto mais eu penso nisso, menos me parece que a morte abre um caminho. Parece apenas que ela fecha.

-A morte fecha qualquer projeto de vida. Se tudo termina, e pode terminar a qualquer momento, fica difícil aceitar o que quer que seja.

Professor: Isso é honesto. Eu concordo com o seu raciocínio.

-Me diga uma coisa: você conhece algum cristão bem estudioso? Alguém que leu muito, que sabe das injustiças do mundo, e que ainda assim não colapsou?

Aluno: Conheço alguns.

Professor: Como você explica isso? Eles não são ingênuos. Sabem da exploração, do sofrimento, da história. E sofrem com isso — genuinamente. Mas continuam.

Aluno: A redenção, imagino. Eles acreditam que o sofrimento tem saída. Não aqui, talvez, mas em algum lugar.

Professor: Exatamente. Eles têm clareza sobre a injustiça, e têm empatia pelo sofrimento alheio. Mas a finitude, para eles, não é o fim da história. Há uma narrativa que ultrapassa a morte. E o que isso faz?

Aluno: Reduz o peso da finitude.

Professor: Reduz. Não elimina — eles sabem que vão morrer. Mas a finitude perde a capacidade de tornar tudo fútil, porque o projeto de vida não termina com o corpo.

-Agora me diga: você acha que a empatia deles é menor por causa disso?

Aluno: Não necessariamente. Às vezes parece maior.

Professor: Por quê?

Aluno: Porque eles acham que o sofrimento pode ser resolvido. Então vale a pena se importar. A empatia tem objeto. Tem destino.

Professor: Certo. Agora pense no caso oposto. O ateu, mas que também busca justiça social. Que não acredita em redenção nenhuma, nem aqui nem em lugar algum, mas que passa a vida defendendo os outros.

Aluno: Eu conheço esse tipo também.

Professor: Como eles sustentam isso? Se não há redenção, se o sofrimento não tem saída transcendente, como continuam se importando, sem colapsar?

Aluno: Eles acreditam nos homens, e que é possível mudar. Que as coisas podem melhorar, porque a história não está fechada.

Professor: E se eles soubessem, ou, como diriam alguns, acreditassem, que a história tende a se repetir, a perpetuar a repressão? Que a condição humana, ao que podemos intuir, não se transforma estruturalmente, apenas muda de roupa? Veja, não estou dizendo que as conquistas sociais sempre foram meramente estéticas, mas você deve conseguir me compreender.

Aluno: Se pensassem assim, os ateus também iriam colapsar.

Professor: Ou continuariam vivendo, e perseguindo mudanças históricas. Mas para seguir, teriam que abandonar parte da clareza sobre o que é constante, ao menos no ser humano. Guardariam alguma esperança, que a evidência histórica não justifica inteiramente. Que, por ser esperança, não é falseável cientificamente. O que alguém muito cético, ou cínico, chamaria de ignorância funcional, vamos dizer assim.

Aluno: Isso não empobrece a empatia dele?

Professor: Como assim?

Aluno: A empatia real depende de entender o que o outro sofre. Se você não tem clareza sobre a estrutura perene do sofrimento, não apenas no nível psicológico, mas no nível histórico, sua empatia é... superficial. E não digo que eu conheça essa estrutura, ou que possamos conhecê-la, mas sinto que podemos intuir sua existência.

Professor: Isso é precioso. Então temos aqui um segundo caso: para manter a empatia alta, sem colapsar, reduz-se a clareza. E ao reduzir a clareza, a empatia que resta é menos profunda do que parece.

-Há ainda um terceiro caso útil, pedagogicamente.

Aluno: Qual?

Professor: A pessoa que pensa muito na finitude, que tem muita clareza sobre o mundo, e não colapsou. Você conhece esse tipo de pessoa?

Aluno: Acho que sim.

Professor: Como ela costuma ser?

Aluno: Fria. Não necessariamente cruel, mas... distante.

Professor: Exatamente. Ela sustenta bem os dois primeiros elementos — finitude e clareza — porque reduziu a empatia. E note: não estou dizendo que ela é má, no sentido vulgar. Mas estou, de fato, usando a empatia como critério moral. Para pensar tanto na finitude e ter tanta clareza, mas sem se angustiar, ela precisou deixar de pensar muito nos outros.

Aluno: Então, para nos equilibrar, acabamos sempre reduzindo algum desses elementos. Seja a lembrança da finitude, a clareza ou a empatia.

Professor: Sim. Como exemplificamos, de forma arquetípica, o "cristão" reduz a finitude — não a eliminando, mas afastando seus efeitos, pela esperança de redenção, após a morte. O "militante ateu", lembrando da finitude humana, reduz a clareza — não a elimina, mas mantém uma esperança que a evidência não sustenta, ao menos "cientificamente". E o terceiro tipo de pessoa, ciente de que é um "ser-para-a-morte", mas que não reduz sua clareza, acaba por reduzir sua empatia. Os três "pagam um preço" para viver sem muita angústia existencial.

Aluno: E quem não paga preço nenhum?

Professor: O que você acha que acontece?

Aluno: A angústia de existir fica insuportável, imagino eu.

Professor: Exija de si o que exigiu de Heidegger. Leve suas conclusões até o final. A que costuma levar, essa angústia insuportável?

Aluno: Ao suicídio?

Professor: Sim. Mas isto não é fraqueza. Não é patologia. É uma conclusão. Uma conclusão que emerge de pensar a finitude de verdade, com clareza, e sentindo os outros. Há uma lógica aí, que não sabemos refutar. Eu, pelo menos, não sei.

Aluno: Então você concorda com ela.

Professor: Concordo com a lógica. Mas há uma coisa que ela não captura, e eu quero que você me diga se, para você, ela também escapa.

Aluno: Diga.

Professor: O suicídio lúcido — esse que estamos descrevendo — não deixa de ser suicídio. É uma decisão singular, que não faz concessão com nenhuma incoerência.

O "cristão" pode, num momento de crise, deixar a redenção de lado, e sentir a finitude de frente. O "militante" pode, num momento de clareza, ver a história como eterno retorno. E o "apático" pode, para deixar de sê-lo, tentar ser eterno, e até abandonar parte de sua clareza.

-Viver é ser mais ou menos consciente da própria finitude, ser mais ou menos ignorante e mais ou menos empático. Não conseguimos esquecer que morreremos, mas também não conseguimos aceitar isso completamente. Podemos ter mais clareza, mas nunca deixamos der ser ignorantes. E nossa empatia pode ser maior ou menor, mas nunca será absoluta, ou inexistente.

-Equilibrar esses três elementos é uma exigência da vida. Não existe nada que nos impeça de tentar sentir o peso total, de todos ao mesmo tempo. Mas é mais angustiante. E essa angústia lúcida não é necessariamente disfuncional, no sentido patológico da psiquiatria, e não decorre de uma falta de clareza, no sentido psicanalítico.

-Não conheço nenhuma análise terapêutica, filosofia ou medicamento, que nos "proteja" de ter que viver nesse equilíbrio.

Aluno: Só a morte nos "protege" disso. Ou nos priva.

Professor: Pois é. Quem chega ao suicídio por lucidez percebe que não existe equilíbrio entre esses três elementos. Não por fuga, mas como consequência de levar a sério essa contradição.

Aluno: Então a vida é uma contradição. Devo aceitá-la? Ou abandoná-la?

Professor: Essa é a maior questão a que já me submeti. E não é filosófica. Espero que você não encontre uma resposta para ela.

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u/Fair_Experience8125 — 15 days ago