u/FTerceira

Situação familiar

Boas noites,

Escrevo este post porque sinceramente já não sei muito bem como lidar com tudo isto e queria perceber se alguém já passou por algo semelhante ou tem conselhos.

Tenho 27 anos e duas irmãs mais velhas, uma com 30 e outra com 35. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha 9 anos, muito por causa dos problemas de alcoolismo do meu pai. Foi uma fase complicada e acho que muita coisa em mim começou aí.

Eu era muito próximo da minha irmã mais velha. Tenho memórias dela quando eu era pequeno de estar a trabalhar, sempre arranjada, parecia ter a vida encaminhada. Mas acabou por se envolver com um rapaz ligado às drogas e acabou também por entrar nesse mundo. Primeiro coisas mais leves e depois drogas pesadas. A pessoa que eu conhecia praticamente desapareceu.

Lembro-me até de a ver a dormir na rua quando eu ainda era puto, algo que nunca consegui compreender porque a minha mãe sempre tentou ajudá-la e nunca lhe virou as costas. Mas a minha irmã nunca aceitou ajuda.

Ao mesmo tempo, a minha outra irmã também dava muitos problemas em casa por causa de álcool, saídas, discussões constantes… nunca havia paz. A minha mãe acabou por vender a casa depois da separação dos bens com o meu pai e fomos viver para casa dos meus avós.

Toda esta situação fez-me tornar uma pessoa muito isolada. Sempre fui mais caseiro, agarrado a ecrãs, muito fechado no meu mundo. A minha mãe agarrava-se muito a mim porque sentia que eu era o único filho “estável” no meio do caos.

Entretanto fomos viver uns anos para os EUA porque a minha mãe conheceu alguém lá, juntamente com a minha irmã do meio. Fiz lá os últimos anos do ensino básico, mas lembro-me perfeitamente de lhe perguntar porque é que estávamos constantemente a mudar de vida e de país. A resposta dela foi que estava a tentar proteger-me de tudo o que se estava a passar à nossa volta.

Na altura talvez não tenha percebido totalmente o que ela queria dizer, mas hoje acho que ela estava desesperadamente a tentar afastar-me do caos da família, das discussões, das drogas da minha irmã e do ambiente pesado que existia à nossa volta.

A relação acabou por não resultar e voltámos para os Açores, onde fomos novamente viver para casa dos meus avós. Mais mudanças, mais instabilidade. Pelo o que percebi a relação nos EUA terminou porque o parceiro da minha mãe na altura perdeu a paciência com os comportamentos/atitudes da minha irmã (saídas e álcool) que já era maior de idade e disse algo que a minha mãe não gostou.

Passado algum tempo, a minha mãe conseguiu finalmente arranjar uma casa para nós e parecia que as coisas estavam finalmente a começar a estabilizar. Mas isso durou poucos meses porque entretanto ela conheceu outra pessoa através dos meus tios cá do Alentejo e acabou por vir para cá viver com a minha irmã.

Eu tive novamente de mudar de vida e fiquei nos Açores em casa dos meus tios para terminar o secundário. E aí bateu-me forte a ausência da minha mãe, porque ela queria que eu fosse para o Alentejo, mas se o fizesse teria de repetir o secundário por não existir nenhuma escola com módulos equivalentes ao curso que estava a tirar na zona.

Só que nessa altura a minha tia estava a passar por um esgotamento e descarregava muita frustração em mim. Foi uma fase complicada porque sentia que andava constantemente a adaptar-me a ambientes novos e tensos.

Ao mesmo tempo, sair dos Açores acabou por me custar muito porque sentia que finalmente estava a começar a criar amizades sólidas e estabilidade na minha vida. Felizmente ainda hoje mantenho algumas dessas amizades apesar da distância.

Com o tempo a minha tia acabou por reconhecer que foi injusta comigo nessa altura. Disse isso à minha mãe e mostrou receio de que eu tivesse ficado ressentido com ela, mas entretanto falámos e ficou tudo resolvido entre nós.

Mais tarde, aos 19 anos, decidi ir sozinho para Évora porque nunca me adaptei muito à zona onde a minha mãe estava no Alentejo, durei lá 2 semanas. Foi provavelmente o maior choque da minha vida. Não sabia cozinhar, não sabia tratar de nada sozinho e tive de aprender tudo do zero.

Durante anos afastei-me muito da família porque sentia necessidade de paz. Queria fugir de dramas, problemas e confusão mental constante. Só nos últimos 2 anos comecei novamente a aproximar-me mais.

Hoje em dia ainda vou falando com o meu pai apesar de tudo o que aconteceu no passado. Sei que ele gosta de mim, mesmo com os problemas dele. Também tento estar presente para a minha avó desde que o meu avô faleceu há cerca de um ano. Isso abalou muito a família, principalmente a minha mãe.

O mais difícil para mim continua a ser a situação da minha irmã mais velha. Desde 2019 que praticamente não temos contacto. Tentei várias vezes aproximar-me, mas sempre senti desinteresse do lado dela. A situação com a droga piorou muito. Segundo a minha mãe, ela troca constantemente de número, desaparece durante dias, muda de sítio frequentemente e ninguém consegue ter estabilidade de contacto com ela.

No Natal tentei ligar-lhe para um número que o meu pai me deu e atendeu um homem a dizer que qualquer contacto tinha de passar por ele. Achei tudo extremamente estranho. Depois ela tentou ligar-me de volta, eu não vi a chamada, e recebi apenas uma SMS a dizer “txau para ti”.

Desde aí nunca mais soube nada dela.

Agora nos últimos dias ninguém consegue contactá-la. Nem o meu pai sabe dela. Um homem ligou apenas a dizer que também não sabe onde ela está.

Sinto que tenho tudo a cair em cima de mim ao mesmo tempo. A minha mãe separou-se novamente e está temporariamente em casa dos meus tios. Vejo-a completamente destruída emocionalmente. E ao mesmo tempo sinto que ela depende muito de mim porque a relação dela com as minhas irmãs está péssima.

Mas eu próprio também estou cansado. No ano passado fiquei desempregado, saí de uma empresa onde estive 5 anos e eu estava a fazer trabalho de 4 pessoas e tive um esgotamento ao voltar, fizeram-me de tudo para lixar e eu feito de burro meti a carta porque não conseguia mais, depois tive noutro emprego que não correu bem e fui dispensado. Neste momento estou a tentar reorganizar a minha vida. Estou a tirar um curso pelo IEFP para melhorar a minha situação e já ando à procura de um part-time porque o subsídio não é para sempre. Vivo num quarto, tenho contas para pagar e sei que quando começar o estágio curricular vou ter de conciliar tudo com trabalho.

Tento muito guardar algum espaço mental para mim, mas sinto que vivo há anos em modo de sobrevivência emocional.

Às vezes dou por mim a pensar na infância. Apesar dos problemas, havia uma casa, uma família junta, alguma estabilidade. E olho para o estado atual de tudo, família desfeita, a minha mãe sem rumo, uma irmã perdida nas drogas, outra completamente desorganizada com a própria vida sendo que nem falo com ela porque carrego tudo e não consigo lidar com a negatividade dela… e sinto um peso enorme por achar que tenho de ser o “forte” para toda a gente.

Só que honestamente já não sei como carregar isto tudo sem me ir abaixo também.

E uma das coisas que mais me custa é pensar que, desde que saí dos Açores, nunca mais consegui voltar porque nunca me senti mentalmente preparado. Custa-me muito ter consciência de que, quando saí de lá, foi provavelmente a última vez que vi o meu avô saudável antes de ele falecer no ano passado.

Já no Natal passado fui à casa dos meus tios, onde a minha mãe está agora, e custou bastante porque já não me viam há muito tempo. Eu só vejo a minha mãe 2 ou 3 vezes por ano. Sei que podia vê-la mais e às vezes até sinto que talvez não esteja a ser um bom filho, mas sempre que lá vou acabo por ouvir que estou frio, sem emoções, demasiado magro e que não pareço bem.

E sinceramente… isto tudo já é demasiado para mim.

Provavelmente preciso mesmo de terapia e vou tentar procurar ajuda.

Desculpem o texto enorme. Só precisava mesmo de deitar isto cá para fora e talvez ouvir opiniões de pessoas que tenham passado por algo semelhante.

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u/FTerceira — 7 days ago