Minha vida inteira sempre foi marcada por restrições, como acontece com muita gente pobre. Não foi difícil perceber isso ainda na infância. Eu queria um brinquedo, uma roupa, um lanche… mas tudo ficava só na minha mente, porque eu não queria incomodar meus pais ou gerar despesas.
Fui crescendo assim: nunca dei problemas na escola nem fora dela. Não saía escondida, não me envolvi com drogas ou outros vícios, nem com nada “errado” (e não digo isso para me sentir melhor que ninguém, não interprete assim). Nem mesmo namorei, por medo do julgamento ou ter que apresentar para minha família desfuncional. Mas, às vezes, penso que talvez eu devesse ter vivido mais, ou até mesmo ter me envolvido com vícios para que eles pudessem me enxergar. Me tornei a filha que não dá trabalho, mas que é depressiva.
Também me sinto muito sozinha. Não sinto que recebo carinho ou presença de familiares. Na verdade, nunca cresci com primos, tios… meus avós eu nem conheci. Sempre foi só minha mãe e meu padrasto.
Agora em maio vou fazer 20 anos. Nunca pedi bolo de aniversário, mesmo querendo muito aos 10, 11, 12, 13, 14, 16, 17, 18, 19… sempre deixei passar. Mas, dessa vez, eu queria algo simples. Só um bolinho, chamar uma amiga, comemorar meus 20 anos.
E o que eu ouvi foi: “tenho raiva disso”, “ela não é compreensiva, não entende a situação financeira”… entre outros comentários pesados, que me fizeram tremer. Sendo que eu guardo tantas coisas para mim justamente para não gerar gastos: dores no joelho há três anos por causa de uma queda, bruxismo, possível depressão, queda de cabelo, além do medo constante de ter herdado problemas de saúde, como doenças no coração, nas mamas ou intestino.
Dias atrás, vi nas redes sociais uma garota de 13 anos, vaidosa, linda, estilosa. Achei ela uma gracinha, de verdade. Mas aquilo me fez lembrar de quando meu padrasto comentou pelas minhas costas que eu nunca fui vaidosa e que só fico no quarto. E é verdade… mas nunca fui vaidosa porque sempre renunciei às coisas que queria para não dar despesas.
Enquanto isso, a filha dele dizia que era a única filha de verdade, pegava o dinheiro dele e gastava com roupas e carnaval, e ainda falava que não se importava se eu e minha mãe ficássemos sem nada.
Só ontem consegui sair de casa para resolver questões eleitorais, no penúltimo dia. Peguei uma fila enorme, mas deu tudo certo. Mesmo assim, hoje fui “massacrada” por deixar as coisas para a última hora.
Também já ouvi o neto do meu padrasto, de apenas 9 anos, dizendo que eu deveria estar trabalhando. E eu concordo… eu deveria mesmo. Talvez assim eu pudesse ter minhas coisas e até morar sozinha. Mas esse é o problema, eu não consigo. Não tenho mais ânimo.
Penso em fazer faculdade, mas já ouvi atrás da porta que eu não vou conseguir passar. E, sinceramente, às vezes acho que não vou mesmo. Estou sem forças.
O que me dói não é querer coisas materiais. O que me machuca é não perceberem o meu lado. A renúncia. O simbolismo de um simples bolo de aniversário. A falta de presença, de carinho, de apoio.
Sinto que esse meu estado depressivo vem muito das coisas que vivi, das falas e comportamentos direcionados a mim. Às vezes penso que, se tivesse crescido em um ambiente diferente, com pessoas mais gentis, talvez eu fosse diferente hoje. Talvez eu tivesse brilhado como alguns professores acreditavam que eu brilharia.
Tenho vergonha de mim. Uma adulta de quase 20 anos, me sentindo desamparada, parada na vida, deitada na cama chorando e me culpando por isso.
Eu sei que preciso de ajuda, mas não tenho condições. Ir ao CAPS ou pelo SUS é difícil pela distância, e às vezes demora muito.
Mesmo assim, sou grata por ter um teto.
Agora, nem sei mais se convido minha amiga. Seria uma desfeita, porque ela sempre me chama para o aniversário dela. Mas também não sei se vou conseguir me sentir feliz nesse dia. Parece que tudo perdeu o sentido. Queria que essa "passagem da casa dos 10 para os 20" fossem simbólico e feliz, mas, antes mesmo do dia já to mal. E, isso é so uma parte de tudo que sinto. Enfim.
Talvez seja besteira para muitos, mas, me sinto muito mal e estou sozinha nessa. Essa é 'a vida adulta', então.