O nome da minha filha
Notícia 1: meu amor está grávida. Notícia 2, apropriados três meses depois, por exame de sangue: é uma menina. Pronto, com 1 e 2, a reflexão sobre nomes, antes só uma brincadeira de namorados que prometem o futuro um para o outro, se torna muito séria.
O que eu tinha certeza é que gostaria de evitar o lugar comum. Eu sou um Bruno e sempre fui oprimido pela banalidade do meu nome. Primeiro que não quer dizer nada, por si só: o significado é um inacreditavelmente descritivo "moreno". Não me direciona nem me consola em nada. Os Pedros ainda, quando passam por provações, podem olhar para suas letras e saber que são "Pedra", os Matheuses, se em crise de fé, sabem ser "'Dádiva de Deus". Os Brunos sempre foram sem norte, nesse sentido (talvez por isso, não há nenhum Bruno relevante historicamente; excetua-se Giordano Bruno, mas ele é mais Giordano do que Bruno, então não conta).
Eu havia pensado em "Rômula", inicialmente. Conheci um Rômulo uma vez que parecia plenamente satisfeito com o nome e com as perspectivas que ele lhe trazia. Por que não adaptar ao feminino, então? Minha esposa apontou que, nesse caso, eu pecava pelo anti-extremo da banalidade, o tal do excentrismo e o único direcionamento que a filhota teria com esse nome seria o de me odiar. Okay, meu amor exerceu o poder de veto e deixamos o Império Romano de lado.
Após semanas, encontramos um justo meio que não agradou ninguém da família salvo quem precisava agradar: eu e esposa ficamos satisfeitos com o sonoro "Charlote". Quer dizer "mulher forte", "mulher independente", duas virtudes que nossa pequena certamente há de precisar e, agora, soletrando-se, tem-nas pertinho de si.
Há também muitos apelidos legais, nenhum vexatório: se o interlocutor é anglófolo, um "Charlie"; se mais nacionalista "Chacha"; se paulista, o nome vai diminuir para "Lote" ou "Char". Meu temor, somente, é se as crianças da sala dela forem amantes do mar ou da literatura e encrencarem em chamá-la de "Cachalote", uma baleia; vou contar com a ignorância marítima dos pimpolhos da década de 20, para ficar tranquilo.
Oh! Notei um erro no parágrafo anterior. É Charlotte, com dois Ts! Decidimos assim para ela nunca achar que veio ao mundo com alguma ausência nominal, sabe? Eu, que tenho Sales com um L só, sempre me senti meio vazio.
Você não, Lotte, você não <3