
Achei que seria mais eclético e me surpreendi com o quanto toco nas mesmas notas.
(O GOTY tornou isso pessoal).

(O GOTY tornou isso pessoal).
“Eu fui despejar uma água lá fora e ele saiu direto pela porta afora e foi pras árvores. Daí a uns minutos tinha três ou quatro corvos com ele. Cercando o Príncipe na árvore. E estavam enlouquecidos. Atormentando o Príncipe. Batendo nas costas dele. Gritando. Pintando o sete com ele. Foi uma questão de minutos. O problema é a voz dele. Ele não fala a língua dos corvos. Os outros não gostam dele. Ele acabou pousando em mim, porque eu estava lá fora. Os outros iam acabar matando o Príncipe.”
“Isso é que dá ser criado de mamadeira”, disse Faunia. “Isso é que dá passar a vida andando com gente como a gente. A marca humana”, disse ela, sem repulsa nem desprezo nem condenação. Nem mesmo tristeza. É assim que é — à sua maneira seca, era o que Faunia estava dizendo à moça que dava de comer à cobra: nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma — não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento. Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza. Tudo o que Faunia estava dizendo sobre a marca era que ela é inevitável. É claro que é assim que Faunia vê as coisas: criaturas inevitavelmente marcadas pela impureza que somos. Resignadas com a imperfeição horrível e fundamental. Ela é como os gregos, os gregos de Coleman. Como os deuses deles. Eles são mesquinhos. Brigam. Lutam. Odeiam. Matam. Trepam. A única coisa que Zeus quer fazer é trepar — pode ser deusa, mortal, vaca, ursa —, e não só na forma verdadeira dele mas também, o que é mais excitante ainda, em forma de animal. Comer uma mulher na forma de um touro enorme. Penetrar uma mulher do modo mais estranho, na forma de um cisne branco. Para o rei dos deuses, carne nunca é demais, perversão nunca é demais. Toda essa loucura que o desejo traz. A dissipação. A depravação. Os prazeres mais grosseiros. E a fúria da esposa dele, que vê tudo.
Não é o Deus dos hebreus, infinitamente solitário, infinitamente obscuro, com sua monomania de ser o único deus que existe, que já existiu e que há de existir, e só se preocupa com os judeus e mais nada. E também não o homem-deus totalmente assexuado dos cristãos, com sua mãe imaculada e toda aquela culpa e vergonha que essa perfeição celestial inspira. Não, o Zeus dos gregos, sempre metido em aventuras, de uma expressividade tão viva, volúvel, sensual, apaixonadamente envolvido em sua existência tão rica, nem um pouco solitário, nem um pouco oculto. Nada disso: a marca divina. Seria uma religião bem ligada à realidade para Faunia Farley, se, por meio de Coleman, ela soubesse alguma coisa a respeito. Tal como dita a fantasia orgulhosa, feitos à imagem de Deus, sim, mas não do nosso — do deles. Deus depravado. Deus corrompido. Um deus da vida, como nenhum outro. Deus à imagem do homem.
“É. Isso é que é a tragédia de um corvo ser criado por gente”, respondeu a moça, não entendendo exatamente aonde Faunia queria chegar, porém pescando alguma coisa assim mesmo. “Eles não reconhecem sua própria espécie. Ele não reconhece. Mas devia. É o tal do imprinting”, disse a moça. “O Príncipe é um corvo que não sabe ser corvo.”
A Marca Humana, Philip Roth.