Capítulo I — Os Que Restaram
Aurastem não caiu porque seus portões cederam.
Quando Valkhazar saiu dos escombros, os portões ainda estavam fechados.
Isso foi o que tornou tudo pior. O bastião havia cumprido o papel para o qual fora construído. Suas muralhas resistiram ao cerco. Suas torres permaneceram. O inimigo visível não entrou por onde deveria entrar.
Foi assim que Cael viu Aurastem pela primeira vez após o massacre.
A pequena coluna de reforço surgiu na estrada norte pouco depois do amanhecer, tarde demais para a guerra e pequena demais para a tragédia que encontraria. Vinham com carroças de suprimentos, curandeiros, soldados jovens e estandartes limpos que pareciam quase indecentes diante da fumaça baixa que ainda escapava da cidade.
Cael cavalgava à frente.
Não era comandante de grandes exércitos, nem herói de canções. Era apenas um humano jovem demais para carregar o peso daquele silêncio, mas velho o bastante para entender que algo estava errado antes mesmo de alcançar os portões. Não havia gritos de vitória. Não havia pedidos de socorro. Não havia som de batalha. Só as bandeiras queimadas balançando devagar e os portões fechados de uma cidade que deveria estar viva.
Ao avistar Valkhazar sozinho diante da entrada, Cael puxou as rédeas com força.
O draconato estava coberto de fuligem, sangue seco e lama escura. A espada em sua mão não tinha mais fio. Uma das placas de sua armadura havia sido arrancada. Ele parecia menos um sobrevivente e mais alguém que a morte esquecera de levar.
Cael olhou para ele.
Depois para os portões.
Depois para as muralhas ainda de pé.
— Onde estão os outros? — perguntou Cael.
Valkhazar não respondeu.
Cael desmontou devagar. Seus olhos percorriam o campo diante do bastião, onde defensores e invasores jaziam misturados sob poeira mineral. Havia escudos partidos, lanças cravadas no chão, carroças viradas e sulcos profundos cortando a terra como cicatrizes recentes.
— Onde estão os outros? — repetiu Cael, agora mais baixo.
Valkhazar tentou falar, mas a garganta ainda carregava fumaça demais.
Cael passou por ele e correu para dentro de Aurastem. Dois soldados tentaram segurá-lo, mas ele se soltou. Entrou chamando nomes.
Chamou por um capitão.
Chamou por sua irmã.
Chamou por Edrin.
A cada rua, sua voz diminuía.
Quando voltou, horas depois, já não parecia o mesmo homem. Trazia sangue seco nas mãos, embora não estivesse ferido. Atrás dele, a pequena coluna de reforço permanecia imóvel, incapaz de aceitar que uma cidade inteira pudesse morrer sem que seus portões tivessem caído.
Cael parou diante de Valkhazar.
— Os portões estão fechados — disse ele, como se ainda tentasse organizar a própria razão. — As muralhas estão de pé.
Valkhazar olhou para a cidade atrás dele.
— Sim.
Cael respirou com dificuldade.
— Então como?
Só então Valkhazar respondeu.
— Mesmo assim, todos estavam mortos.
Cael ficou imóvel.
Valkhazar ergueu os olhos para as fissuras negras que cortavam a praça, os pátios e as galerias inferiores.
— A ameaça não veio de fora.
A voz dele saiu baixa, rouca, quase sem força.
— Veio de baixo.