
Eu era analista de dados no mercado financeiro (7k CLT). Faz 5 meses que estou na Irlanda trabalhando em obra. Vou contar como está sendo.
Antes de vir pra Irlanda eu trabalhava com dados no mercado financeiro. Comecei de telemarketing, virei assessor de investimentos, fiz ciência da computação, e cheguei a liderar uma equipe responsável por manter os sistemas de investimento rodando. Desenvolvia análises, automatizava processos, criei um sistema que monitorava carteiras de clientes e avisava os assessores quando uma ação atingia upside relevante pra venda. Ganhava 7 mil líquido.
Hoje eu trabalho em obra na Irlanda. Carrego entulho, trabalho na chuva, ganho 17 euros por hora.
Vou contar o que aconteceu nesses 5 meses pra quem tá na área de dados e pensa em sair do Brasil.
Cheguei aqui com ajuda de um amigo que me arrumou um teste numa empresa de pintura. Primeira semana fui mandado embora. O cara pagava 70 euros na diária, uns 8 euros por hora (mínimo aqui é 14). Eu e minha esposa dormindo na sala do apartamento desse amigo.
Na mesma semana conseguimos um turno numa pizzaria. Entrava meia-noite, fazia massa, limpava cozinha industrial, saía 2:30 da manhã. Meia hora de caminhada no frio até voltar. Juntos tirávamos uns 1000 euros por mês.
Depois veio pintura de novo (75/dia), e eu fazia os dois: pintura de dia, pizzaria de madrugada. Renda total uns 2500. Foi quando conseguimos alugar um quarto.
Depois carpintaria pra um irlandês (90/dia). O cara gritava toda hora, mandava eu voltar pra floresta no Brasil. Aguentei dois meses e meio e saí por sanidade mental.
Agora estou em obra, 17 euros/hora, uns 2400 líquidos no mês.
Evolução salarial em 5 meses: pintura a 8/hora → pizzaria → pintura a ~9/hora → carpintaria a ~11/hora → obra a 17/hora.
Agora o ponto que mais interessa pra quem está nesse sub: e a área de dados?
Por enquanto, não estou na área. E vou ser honesto sobre o porquê.
Quando você chega, seu currículo brasileiro não existe aqui. Sua rede de contatos não existe. Seu inglês, mesmo que seja bom pra ler documentação, não compete com quem já está no país pra uma entrevista técnica. E a maioria das empresas não vai patrocinar visto pra alguém de fora quando tem gente qualificada aqui sem precisar de burocracia.
Não é impossível conseguir vaga na área direto do Brasil. Mas é raro. E se você ficar esperando isso acontecer pra dar o primeiro passo, pode acabar adiando a decisão por anos.
O que eu estou fazendo: trabalho em obra durante o dia (é o que paga as contas), e no resto do tempo estudo inglês, mantenho meu conhecimento técnico atualizado, estou montando LinkedIn em inglês e me preparando pra começar a aplicar pra vagas de dados aqui. Eu não vim pra cá pra ficar em obra pro resto da vida. Estou na obra enquanto me preparo pra voltar pra área.
E mesmo assim, ontem completei 2 anos de casado e dei um iPad novo, do ano, pra minha esposa. Paguei à vista. Não custou mais que 4 dias de trabalho na obra. No mercado eu pego o que quero sem ficar fazendo conta.
Tem dia que olho pras minhas mãos e penso o que eu estou fazendo aqui. Mas quando comparo com o que eu tinha no Brasil, com aquela sensação de que por mais que eu trabalhasse o salário não ia mudar muito, eu prefiro estar aqui.
Comecei a escrever sobre tudo isso numa newsletter com mais detalhe. Lá eu falo mais sobre custo de vida com números reais, como está sendo tentar voltar pra área de dados daqui, e o que eu queria ter sabido antes de sair do Brasil. Se quiser acompanhar: https://diariodeimigrante.substack.com
Mas queria ouvir de vocês: alguém aqui da área já fez esse movimento? Está pensando em fazer? O que mais trava vocês?