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{RELATO} Relato de Vaga Arrombada em ONG

Final do ano passado eu tinha saído de uma vaga trainee em uma grande empresa de auditoria por questões de urgência médica na família. A tempestade passou e, no começo do ano, comecei a buscar um emprego perto de casa e que não precisasse estar viajando constantemente.

Achei uma vaga no setor de Compras de uma ONG escola/clínica para crianças especiais, salário igual ao que eu recebia na auditoria e uma hora a menos de trabalho (7h até 17h, com banco de horas). Enviei o currículo e fui chamado para a entrevista na empresa. Chegando lá, fui recepcionado pela mina do RH e pelo supervisor do setor de Compras. Fizemos uma entrevista bem tranquila, onde eu demonstrei bastante interesse pela ONG e pelo setor, mas frisei três vezes que eu não possuía experiência prévia no setor de compras. Eles entenderam e falaram que iam me dar a resposta em uma semana. Logo no dia seguinte já recebo a ligação do RH falando que eu tinha sido o candidato escolhido para a vaga e que eu começaria na próxima semana. Fiquei super animado e comecei a dar uma estudada em como era a atuação de compras no terceiro setor, mas tudo teórico, já que não existe um fodendo ONG Simulator.

Cheguei na empresa, me apresentei pro pessoal do setor (um mano gente boa do almoxarifado, o supervisor que tinha feito a entrevista comigo e uma mina que trampava lá há uns dois anos) e beleza. Liguei o computador e perguntei quais eram as plataformas e se tinha algum MAP ou POP de como era a estrutura hierárquica de procedimentos que a gente devia seguir. Me foi informado: “putz, uns três anos atrás até tinha, mas a gente não atualizou e nem sabemos onde está o arquivo”. Falei que estava tudo certo e perguntei se podia acompanhar algum deles no primeiro dia para poder entender um pouco de como era o processo na prática. O supervisor delegou que eu ficasse perto da mina, que ela ia me passar as coisas para fazer.

Até aí tudo certo. Falei com ela e pedi para ela me explicar um pouco de como funcionava. Ela me passou uma planilha em Excel e falou que, por enquanto, eu tinha que ficar buscando novos fornecedores porque não tinha muita coisa para fazer. O que estranhei, porque a mesa dela estava com uma pilha de requisições de compra e ela não parava de digitar na planilha. Mas ok. Montei uma planilha no Sheets para que todos pudessem ter acesso e fiz a busca. No começo fiz na mão, mas depois fiz um código no Google Collab para fazer scraping no Maps e automatizei para inserir fornecedores de insumos básicos na planilha (açougue, produtos hospitalares, hortifruti, material de construção etc.). Fiz um “banco de dados” com todos e também sub-abas por categorias específicas e apresentei para eles. Beleza, apresentei e eles nem viram.

No segundo dia, comentei que tinha terminado a tarefa e perguntei se eu podia fazer alguma outra coisa. A mina me deu uma requisição e finalmente comecei a negociar com os fornecedores. Detalhe 1: negociação feita apenas por WhatsApp, porque eles não tinham o costume de usar e-mail pelo prazo de resposta não ser “imediato”. Detalhe 2: o WhatsApp não tinha separação nenhuma de conversas. Eram três pessoas usando o mesmo WhatsApp Web, sem divisão de usuário nem de conversas.

Por serem fornecedores regionais e de pequeno porte, eu sempre me baseava nas notificações das mensagens para dar andamento na negociação e, enquanto eles não respondiam, eu ficava ajeitando a planilha de fornecedores que eu tinha criado. Depois de muito custo esperando as respostas, consegui fechar a negociação com os vendedores e fiz o mapa de compras no modelo que a mina tinha passado no primeiro dia. Imprimi e pedi para ela dar uma verificada se estava tudo seguindo os padrões. Ela pegou e disse que ia olhar depois do almoço. Nisso, me mandou mais uma requisição para atender. Dessa vez tinha que produzir os mapas separados para cada produto, visto que cada fornecedor apresentava itens que eram mais baratos entre si, nenhum que cobrisse todos os preços ou que dois ou mais produtos valessem mais a pena. Terminei e entreguei para ela.

Fui para o horário de almoço e, depois que voltei, não me passaram mais nada. Perguntei de novo o que eu poderia fazer e me falaram que não tinha nada no momento. Às 16h40 desse dia, depois de coçar muito a xereca e ficar zanzando de setor em setor para conversar, a mina resolveu olhar o que eu tinha feito. Verificou um a um os mapas que eu tinha feito e, chegando no último, disse: “ah, esqueci de comentar, eu te passei o modelo de mapa errado para esse caso, vai ter que refazer eles seguindo esse outro aqui”, enquanto arrumava as coisas dela para ir embora. Fiquei meio decepcionado por já estar quase no final do expediente, mas refiz e entreguei ainda no mesmo dia para o supervisor.

No dia seguinte, 7h, ela estava fazendo um projeto de arquitetura para um espaço da empresa. Pedi para ela dar uma olhada se estava tudo certinho ou se precisaria refazer algo. Ela pegou e deixou na mesa dela. Perguntei se eu podia fazer algo e a resposta foi: “espera o supervisor, agora está bem tranquilo”.

Às 9h chega o bendito supervisor e pergunta onde estavam os mapas que eu tinha feito, porque ele precisava olhar para fechar logo a compra. Falei que estava com a mina e ela solta um “ué, você não me entregou nada”. Como nossas mesas eram próximas, percebi onde ela tinha guardado e comentei: “poxa, NOME DA PIRANHA, eu estou vendo eles daqui, estão no seu escaninho”. Ela pegou com a maior má vontade do mundo e entregou para ele, falando: “ah é, estão aqui mesmo, esqueci”. Ele conferiu e tinham alguns errinhos de preenchimento de cabeçalho, pois em momento algum tinham me informado que eu deveria escrever os detalhes do convênio que estavam usando para pagar os produtos. Mas beleza, refiz e entreguei. Não me passaram mais nada para fazer nesse dia.

No terceiro dia eu cheguei, perguntei novamente o que eu podia fazer e ela falou para eu esperar o supervisor. O mano chegou e disse que era para eu esperar que depois ele ia me passar coisa para fazer. Perguntei se, nesse meio tempo, eu podia ajudar o mano do almoxarifado para não ficar só olhando para a tela do PC vazia, que era virada para uma janela do corredor onde todos os funcionários e alunos da ONG podiam ver. Eles falaram que poderia e que seria até bom uma mão extra por conta da demanda que ele estava tendo.

Voltei umas 10h para o setor e nada de me passarem uma nova requisição até as 16h30. Mandei mensagem para os fornecedores, que em grande parte não responderam na hora, e terminei o dia.

Do quarto ao décimo dia mais ou menos foi basicamente a mesma coisa. Eu terminava a negociação do dia anterior e ficava até quase o fim do expediente sem nada para fazer, por mais que eu perguntasse se precisavam de mim para algo.

No 11º dia, quando cheguei, pediram para eu ir ajudar o mano do almox a levar caixas de material que a prefeitura tinha doado para a ONG até o auditório, uns dois andares. Mesmo não sendo minha função, eu fui, porque já estava entediado de ficar sem fazer nada. Ajudei e voltei para meu lugar.

No 12º dia o supervisor veio reclamar comigo porque o produto que eu tinha comprado era de 1L e não de 5L. Estranhei, porque eu sempre lia e conferia a requisição com a compra realizada. Notei que na requisição estava de 1L mesmo e mostrei para ele, que me responde: “ah, a NOME DA PIRANHA tinha me dito que a gente nunca compra esse produto de 1L, só de 5L”. Nisso a guria começou a ler e responder as mensagens que eu trocava com fornecedores, atrapalhando mais ainda a negociação. Essa guria do caralho teve a capacidade de fechar pedido com fornecedor pelo celular dela e sequer me informar, usando figurinha ainda por cima.

No 13º dia eu parecia uma presença indesejável naquele setor. A mina sequer respondeu o bom dia e já veio me cobrar porque eu “desrespeitei ela”. Não entendi o papinho dela e perguntei o que estava acontecendo. Me foi informado que “eu sempre tenho que perguntar para ela se a requisição está certa”. Mesmo sabendo que não fiz porra nenhuma de errado, porque no maldito papel estava explícito que era de 1L ao invés de 5L, pedi desculpas e vida que segue. Porém, nem o supervisor nem ela falaram nada comigo, o que até foi bom, porque eles ficavam com um papinho de grupo do Telegram de software crackeado e a porra de um suposto show da Shakira que ia ter no Rio de Janeiro, e a mina queria ir, com o supervisor dando corda nesse assunto. E novamente respondendo mensagens se passando por mim, o que dava para ver que não era eu, porque eu nunca usei figurinha para responder mensagem de serviço.

No 14º dia o dia passou e nada de trabalho até as 16h de novo. Mas nesse dia umas cinco pessoas de outros setores foram lá na sala conversar sobre um sistema CRM que ia ser implementado em toda a ONG e como ele ia atrasar o trabalho de todo mundo. Basicamente tudo ia ter que passar pelo diretor da ONG, que aparentemente não era muito de ir trabalhar presencialmente.

No 15º ou 16º dia mais ou menos, já estava de saco cheio de ter conversa atravessada e ficar sem fazer porra nenhuma. Falei com o supervisor sobre isso e ele respondeu: “a gente tem que fechar os pedidos o mais rápido possível”. Ao qual respondi: “entendo que são prioridade, mas em momento algum eu demorei mais do que cinco minutos para responder às mensagens”, e mostrei o histórico de conversas.

No 18º dia implementaram o sistema CRM lá. Confusão geral porque a maioria dos funcionários não tinha entendido como funcionava o sistema ou porque o sistema não estava configurado corretamente.

Do 19º ao 20º foi só o pessoal se batendo e literalmente nenhuma requisição no setor, porque o diretor não tinha aprovado nada e afirmou para o supervisor que só ia aprovar ou reprovar às terças e quintas de cada semana.

O 21º dia era uma quinta-feira. Nada foi aprovado ainda. Fiquei coçando o saco.

No 22º dia o maluco do almox tinha recebido uma solicitação para entregar uns produtos clínicos no setor de exames, mas os produtos estavam vencidos. Eram aqueles palitinhos de picolé que usam para abaixar a língua do paciente. O supervisor falou: “ah, isso nem vence, é só apagar a validade e entregar para eles”. O maluco do almox disse: “a médica disse que, por ser de madeira, eles perdem a validade e podem estar com fungo ou bactéria”. O supervisor respondeu: “ah, para com isso, que palhaçada, é só madeira e madeira não estraga”, e saiu da sala.

Quando ele voltou, estava segurando uma garrafinha de álcool e um pano. Me entregou e pediu para eu ir apagar a validade e o lote dos pacotinhos, uns 30 pacotes vencidos há uns três anos depois da validade máxima. Fui lá e apaguei de um pacote. Me senti um merda. Fui para o almoço e subi direto para o RH.

Pedi a rescisão do contrato de experiência e a mina do RH falou: “você sabe que saindo agora você não vai receber salário, né?”. Respondi: “ué, como assim?”. E ela: “é, por ser experiência é descontado do salário o restante dos dias que você não trabalhou”. Contra-argumentei com: “isso eu sei, mas vocês só podem descontar 50% do proporcional aos dias que faltavam”. Ao qual fui retrucado com: “pois é, mas aqui não funciona assim”.

Falei que tudo bem, mesmo sabendo que isso é ilegal pra caralho, porque no Brasil trabalhar sem remuneração é crime. Voltei para o setor, separei tudo que tinha feito (mapas de compras e histórico de negociação, planilha de fornecedores, catalogação de uns produtos do almox e conferência de inventário), salvei tudo no drive e chamei os dois para mostrar. Eles ficaram meio que surpresos com a qualidade e organização, porque era a única merda que eu fazia quando não me passavam nada para fazer. Expliquei que estava saindo e agradeci pela experiência.

Um dia depois de pedir a rescisão, mandei mensagem para o RH perguntando sobre o salário proporcional. Deixei para pedir por WhatsApp porque, caso me negassem o direito ao salário, eu teria provas e poderia entrar com processo.

OBS.: Devia ter ficado mais oito dias para ter recebido o salário completo, mas já não aguentava mais a desorganização e me sentir excluído todo dia.

OBS.2.: Nunca mais trabalho em ONG.

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u/Toninho_hk1 — 13 hours ago