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Suttree: um homem que abandona tudo e encontra… o quê?
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Suttree: um homem que abandona tudo e encontra… o quê?

Escrito pelo mesmo autor do "anti-western" Meridiano de Sangue e dos romances adaptados para o cinema A Estrada e Onde Os Velhos Não Tem Vez. Em Suttree, Cormac McCarthy nos traz uma história totalmente diferente do que propôs em seus livros seguintes. Ao invés de violência brutal e clima pós-apocalíptico, aqui McCarthy apenas acompanha um homem vivendo à margem da sociedade.

Nos anos 50, Cornelius Suttree abandona uma vida boa para ir morar em uma casa flutuante decadente na beira do Rio Tennessee em Knoxville. Lá ele vive pescando e convivendo com pessoas de todos os tipos: bêbados, mendigos, loucos, prostitutas.

O que torna esse livro digno de reconhecimento não é a história propriamente dita, é tudo que o livro não diz explicitamente. Suttree mergulha o leitor em uma atmosfera contemplativa, suja, decadente e extremamente bela, às vezes beira o psicodélico. Mostrando a vida humana através de uma solidão, não dramática, mas sim como o estado natural da vida. O leitor é lentamente introduzido dentro da vida que o livro nos mostra. Aos poucos, nos sentimos no meio dessas pessoas, convivendo com elas. Personagens verossímeis, decadentes, engraçados mas no meio desse humor está uma tristeza cada vez mais aparente. A vida acontece para todos. Pessoas morrem, somem, deixam de aparecer sem motivo... e a vida continua.

A escrita de McCarthy é extremamente densa, poética, e ao mesmo tempo linda. É impressionante como o autor descreve paisagens sujas, feias, deterioradas de uma forma tão bela e com uma linguagem tão rebuscada. Descrições tão bem escritas que chega a ser hipnotizante.

Nos 4 anos narrados da vida de Suttree, qual a resposta para a pergunta do título? O que ele encontra?

Suttree não encontra nada. E talvez o mais inquietante seja isso: ele também não está procurando. Não há redenção, não há uma mensagem explícita. O que existe é permanência. Estagnação. Suttree não busca nada, ele apenas existe ali, à margem do Rio Tennessee e da sociedade. Ele apenas permanece. Ele segue o curso da vida assim como o rio... e é isso que mais causa desconforto e ao mesmo tempo fascínio.

Não é uma leitura fácil, não é convencional. Em muitos momentos parece que nada acontece, apenas a vida... e talvez seja isso que o livro queira mostrar. Suttree não é um livro sobre mudança. É um livro sobre permanecer. Sobre observar. Sobre existir mesmo quando não há motivo claro para isso.

Esse é um dos livros mais humanos e reais que eu já li, ao mesmo tempo que é um dos mais estranhos e belos. Contemplar uma vida decadente e ainda assim enxergar a beleza em meio a tudo isso... talvez seja essa a proposta do livro.

Nunca vi falarem desse livro aqui no Brasil, e acho que é um livro digno de reconhecimento. Alguém mais já leu? Qual sua opinião?

u/Itz_DrEwW — 3 hours ago