u/FrontZealousideal772

Cotard

Um homem acorda.

A cama está bagunçada.

Ele acorda aparentemente confuso, mas logo retoma seus sentidos.

Ele se levanta.

Tenta arrumar a cama, mas no final deixa ela de qualquer jeito.

Ele vai pro banheiro.

Um banheiro com um cheiro esquisito — não chega a ser fedido, mas não é lavado frequentemente.

Ele toma banho e sai sem secar o cabelo.

Vai até a cozinha.

Come pão e bebe um café, praticamente engolindo sem mastigar.

Deixa a louça acumulada.

Ele se arruma no quarto, mas sem olhar pro espelho.

Quando sai de casa, acaba olhando o próprio reflexo no vidro de um carro.

Metade da face dele parece que não existe.

Ele coloca a mão na metade da cara.

Ele consegue apertar.

Mas não vê nada.

E mesmo conseguindo encostar, não tem textura de nada.

Parece que ele está tocando no nada.

Ele vai à escola.

Chega, fala incrivelmente com todos os colegas.

Cumprimenta, ri e brinca.

Até que a professora chega e eles vão estudar.

Ele se senta sozinho.

Bota os fones de ouvido, ouvindo Pink Floyd a aula toda, e dá repeat em Wish You Were Here algumas vezes.

Chega ao recreio.

Ele não senta com ninguém.

Come sozinho.

Mas cumprimenta algumas pessoas de outras salas e brinca como fez antes com seus colegas.

Depois se despede e se senta sozinho.

Come ouvindo Doris.

O último horário chega.

Dessa vez ele não fala com ninguém.

Vai embora rápido.

Pega o ônibus e fica sentado em um estado quase onírico.

Enquanto vai pra casa, faz questão de ouvir Zushi.

Ele chega em casa.

Faz um macarrão instantâneo com as roupas da escola mesmo.

Vai ver um filme, Barry Lyndon.

E adormece no sofá.

Ele acorda.

Repete toda a rotina do exato mesmo jeito.

Dessa vez, não bebe café.

Mas fica meio eufórico ao sair de casa.

Quando sai, percebe que o carro não está lá.

Ele fica aliviado.

Ele chega à escola.

E a primeira coisa que a professora fala é que eles vão ter uma avaliação psicológica.

Ele passa a mão na cara, pensando:

"Que saco."

Ele chega e pergunta a um colega que se senta do lado dele:

"É obrigatório?"

O colega responde:

"Sim, por quê?"

Ele responde:

"Nada."

Enquanto passa a aula, ele começa a dar incontáveis tremidas nos dedos.

Fica cada vez mais impaciente e estressado.

Até que chega a avaliação.

O psicólogo chega e o cumprimenta:

"Oi, tudo bem? David, certo?"

Ele responde:

"Sim."

Então eles começam a conversar.

Psicólogo:

"Como você descreveria sua experiência na escola atualmente?"

David:

"Boa."

Psicólogo:

"Tem alguma disciplina que gosta mais? E menos? Por quê?"

David:

"Não, eu só estudo."

Psicólogo:

"Como você se sente entre seus colegas de turma?"

David fraqueja um pouco em responder. O psicólogo percebe.

David:

"Bem..."

Psicólogo:

"Tem um grupo de amigos na escola? Sente-se incluído?"

David demora pra responder.

"Não exatamente, mas se você tá pensando em bullying, não, não é isso, é só... deixa."

Psicólogo:

"Ok. Seus pais ou responsáveis acompanham sua vida escolar?"

David:

"Eu não falo com meus pais há tempos, mas eles acompanham pelo celular."

Psicólogo:

"Por que você não fala com eles, David?"

David:

"Eles moram longe. Eles me dão algum dinheiro, que dá pra viver, e eu me viro."

Psicólogo:

"Você se sente sozinho, David?"

David fica em silêncio. Tenta responder e falha. Não responde.

O psicólogo fica em silêncio, observando ele.

"David, vamos encerrar por hoje. Amanhã eu quero te ver."

David:

"Precisa mesmo?"

Psicólogo:

"Sim."

David vai embora sem se despedir.

Hoje David vai embora ouvindo In Rainbows.

David acorda.

Ele vai e tenta arrumar sua cama, mas desiste.

E ele se estressa por não conseguir arrumar, não porque ele tem preguiça, e sim porque não consegue.

As pontas dos seus dedos não existem.

Elas estão lá, mas ele não consegue vê-las.

O banheiro dele não tem espelhos nem box.

Ele evita ao máximo ver o próprio reflexo.

Ele se lava, se seca — menos o cabelo.

Ele vai à cozinha.

E vemos por que ele come desse jeito.

Ele não tem língua.

Não tem estômago.

Deixa a louça na mesa. Nem na pia coloca.

Ele se arruma.

O espelho que antes estava lá está quebrado.

Ele sai de casa, despreocupado.

Ele vê o próprio reflexo no carro.

Começa a chorar.

Ele chega na escola.

Mais recluso. Não fala com ninguém.

As pessoas estranham, mas não questionam.

Passa todo o horário escolar.

E, na hora de ir embora, o porteiro o barra, lembrando que ele ainda tem psicólogo.

Ele se irrita, bufa, fica estressado, murmura, até que enfim boceja e vai pra consulta.

Psicólogo:

"Boa tarde, David. Como foi o dia?"

David:

"O de sempre, uma merda."

O psicólogo fica em silêncio.

Um grande silêncio constrangedor.

Psicólogo:

"David, você está bem?"

David para.

Fica em silêncio, encarando o psicólogo.

Até que, do nada, David começa a rir loucamente, freneticamente.

Psicólogo:

"David, você está bem?"

David para de rir.

Encarando o psicólogo em silêncio por alguns segundos.

Até que ele fala:

"Eu estou morto."

Fim

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u/FrontZealousideal772 — 14 hours ago