Sobre amoras e quedas
Tem uma época do ano em que o pé de amora da minha tia fica cheio. Elas caem, rolam pelo meu telhado e acabam na minha varanda.
Eu acordo e me deparo com a abundância dos frutos. Sei que a limpeza será por minha conta, porém acho graça, tento romantizar.
Nesses dias, gosto de quebrar o jejum por ali mesmo. Quem sabe ouço uma música, algo poético.
Se minha Flor está comigo, fazemos planos e sonhamos um pouco. Se estou só, apenas reflito; tento ver beleza nas pequenas coisas.
Volto para dentro e me deparo com minhas próprias pegadas (roxas). O cachorro repete meu erro e pula em mim, deixando a marca de suas patas, também roxas. Minha Flor reclama de toda essa lambança.
Maldita árvore, malditos frutos, maldita mulher e maldito cachorro.
Sinto a cólera se aproximar, esqueço o romance, deixo de lado os planos e também a poesia.
Volto aos meus afazeres. Dispenso a visita na mesma sacola que as fezes do cão.