
Eu ODEIO políticas de inclusão
O título é clickbait, eu sou ultra apoiador da existência das políticas de inclusão, e por isso digo: eu odeio como as políticas de inclusão foram desenhadas.
Como muita coisa no Brasil, essa políticas ficam só no papel, especialmente na Educação. Porém, quando a gente lê e vê na prática como essas políticas se traduzem, fica muito óbvio o como elas foram escritas por neurotípicos que não entendem nada sobre a vivência autista, e são políticas "mortas no nascimento". E na prática, só servem de token e checklist pra "veja como nós nos importamos com os PCDs".
Um exemplo escrachado pra mim, que sou Suporte 1, é o das filas "preferenciais" (prioritárias): por lei, temos direito ao atendimento prioritário. Porém, muuuitos lugares não tem fila prioritária separada da fila regular, então cabe a nós cordialmente pedirmos pra sermos atendidos na frente, em meio a um monte de gente que não entende o autismo, incluindo os próprios atendentes. Eu tenho uma vergonha absurda de me expor nessas situações, também por culpa da Disforia Sensível à Rejeição, e acabo ficando na fila regular mesmo, por medo de ser julgado e humilhado.
No âmbito do transporte e da sinalização, eu percebo que as pessoas comuns sequer sabem os símbolos do autismo, até o de quebra-cabeça, que dirá o da neurodiversidade ou do girassol. Tanto que, eu já fui constrangido no ônibus porque me perguntaram se eu tinha problema, pra estar sentado no assento preferencial, e eu estava com meu crachá de quebra-cabeça bem visível. Eu como um bom autista, só dei lugar e fingi que nada aconteceu, me sentindo uma farsa. Então que ótimo que somos incluídos na preferência dos assentos, mas não há nenhuma política de sensibilização e conscientização das pessoas comuns para que respeitem nosso direito. Eu não tenho energia mental pra brigar, então só cedo.
Na Educação, minha área, nem se fala... Foi meu tema de TCC inclusive. Temos por lei o direito ao cuidador (Profissional de Apoio Escolar) e ao Acompanhante Terapêutico, mas nenhum deles precisa ser capacitado por lei na Pedagogia ou Psicologia, então muitos atrapalham o desenvolvimento pedagógico dos alunos, e a criança fica estagnada, consideradando que nós professores não temos formação inicial e continuada o suficiente pra conhecer técnicas pra lidar com crianças autistas.
O ambiente escolar é hostil ao autista: luzes fortes, barulhos fortes, salas cheias e apertadas de gente. Como caralhos vamos inserir as crianças num ambiente desses? Elas só vão passar mal, exprimir seu descontentamento na forma de agressividade, tristeza e ansiedade.
Estamos num limbo. Os ambientes regulares não nos acolhem e não cabemos neles. Os ambientes especializados costumam ser privados (pagos), elitistas, e muitas vezes com a atitude predatória de instituições religiosas, que usam esses locais com pessoas vulneráveis como jardim de doutrinação.
Enfim, é um desabafo... Eu queria muito que tivéssemos uma Comissão técnica na política feita exclusivamente por pessoas autistas e capacitadas, pra que essas políticas tão importantes fossem melhor desenhadas e vigiadas por nós autistas. Só assim a gente vai finalmente conquistar nosso espaço de direito nessa sociedade doente e neurotípica.