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Amo One Piece, mas não consigo enxergá-lo como um anime tão bom quanto dizem.

Eu amo One Piece, mas não consigo mais considerá-lo um anime tão bom assim.

Assisto One Piece desde os meus 12 anos. Alcancei os episódios semanais no começo de Dressrosa e acompanho semanalmente desde então. One Piece marcou a minha vida, vai sempre ter um espaço especial pra mim e eu provavelmente vou assistir até o final. Dito isso, hoje eu consigo enxergar problemas que quando era mais novo, e tinha bem menos senso crítico, eu ignorava e acabava tratando a obra como uma obra-prima absoluta.

Pra não escrever uma bíblia aqui, vou falar só dos personagens principais (mas quem sabe depois eu não faça um desabafo sobre furos de roteiro e escala de poder?)

Oda é excelente em criar personagens, mas muito ruim em desenvolvê-los. A sensação que eu tenho é que ele tem medo de alterar algo já consolidado, ou talvez goste demais dos próprios “filhos” pra deixá-los crescerem de verdade. E o pior é que os personagens que mais precisavam de desenvolvimento já tiveram ganchos narrativos perfeitos pra isso… mas o Oda simplesmente desperdiçou.

Sanji, por exemplo. Desde o começo ele é mostrado como um “galanteador” (pra não chamar de outra coisa), alguém que constantemente deixa a paixão falar mais alto que a razão. Em Dressrosa ele já sofre um pequeno rebote disso com a Viola, mas nada muito sério. Só que em Whole Cake Island ele literalmente entra num casamento armado, cria sentimentos reais, tem o coração destruído naquela cena icônica da chuva e depois abandona tudo aquilo pra seguir em frente.

Aquilo era a oportunidade perfeita pro personagem amadurecer. Não precisava deixar de gostar de mulheres nem perder a personalidade, mas era o momento ideal pra ele aprender que viver pensando com a cabeça de baixo traz consequências não só pra ele, mas pra tripulação inteira. Ainda mais porque esse arquétipo do personagem pervertido “engraçado” envelheceu muito mal. O que funcionava em anime shounen há 10 ou 15 anos hoje incomoda muita gente.

E o problema não é nem só uma questão “ocidental”. Até no Japão já existe um desgaste com esse tipo de personagem. E sinceramente, One Piece deixou de ser uma obra exclusivamente japonesa há muito tempo. Hoje é uma franquia global, com live action hollywoodiano e protagonista interpretado por um ator que nem japonês é. O contexto mudou, mas o Sanji continua preso exatamente na mesma gag de 20 anos atrás.

No fim, o Sanji pós-Whole Cake parece exatamente o mesmo Sanji pré-Whole Cake, como se nada realmente importante tivesse acontecido.

Usopp é outro caso frustrante. Ele foi introduzido como um covarde cujo sonho é se tornar um guerreiro bravo do mar. Em Enies Lobby, o Sogeking foi uma ideia genial justamente porque funcionava como um alter ego. A máscara era também metafórica, foi o personagem que mais farmou aura naquela saga.

Só que o Oda simplesmente abandonou esse conceito.

Depois, em Dressrosa, o Usopp teve novamente momentos excelentes, talvez os melhores do personagem, agindo de forma genuinamente corajosa mesmo estando aterrorizado. Parecia finalmente existir uma progressão. Mas passou o arco e tudo voltou ao zero. Hoje a função dele frequentemente parece resumida a ficar gritando e surtando a cada novo inimigo que aparece.

Fica difícil acreditar no sonho do personagem quando, depois de mais de mil episódios, ele continua reagindo exatamente como reagia no começo da série.

A Nami talvez seja o caso que mais me incomoda. Muitas vezes parece que ela existe mais como fanservice do que como personagem. E o pior é que os dois grandes power-ups dela passam uma sensação enorme de conveniência narrativa.

O primeiro é em Alabasta. O Usopp sempre foi mostrado como criativo e habilidoso com bugigangas, mas muito mais no sentido de improviso e utilidade geral. Do nada ele cria um bastão tecnológico absurdamente avançado capaz de manipular clima, e a obra nunca tenta explicar minimamente como aquilo funciona. Se fosse o Franky criando, faria sentido porque engenharia absurda literalmente é a especialidade dele. No caso do Usopp, parece só um recurso jogado ali porque o roteiro precisava.

O segundo é o Zeus em Whole Cake. Enquanto o Zeus estava isolado da Big Mom, fazia sentido ele obedecer alguém portando um Vivre Card dela (da filha dela, na verdade), como se estivesse reconhecendo a presença da “mestra”. Mas o negócio escalar ao ponto dele efetivamente trocar de lado e permanecer com a Nami mesmo diante da própria Big Mom soa forçado demais. É como se o Igris traísse o Sung Jin-Woo em Solo Leveling. Ou como um Pokémon simplesmente abandonar o treinador original do nada (isso sainda seria mais aceitável).

Nos dois casos, passa muito a sensação de que o Oda precisava manter a Nami minimamente relevante no nível de poder do grupo, mas não queria gastar tempo construindo isso de maneira realmente coerente.

Luffy, Zoro, Robin e Franky eu acho tranquilos. Eles já são personagens mais “fechados” e funcionam bem dentro da proposta deles. Mas Sanji, Usopp e Nami tinham conflitos internos claros e oportunidades perfeitas de crescimento… e eu sinto que o Oda simplesmente cagou no pau com os três.

Brook e Robin não tiveram muito desenvolvimento mas diferente dos três acima, eles não precisam desse desenvolvimento então eu não ligo. Chopper é chatão, mas pelo menos ele cumpre o papel que lhe foi prometido.

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u/ErrorSegFault — 1 day ago