Sou amargurado demais ou é pura humilhação?
A empresa que eu trabalho começou a oferecer frutas gratuitas no escritório, três vezes por semana. Antes disso, tinha um café da manhã às sextas, com salgados e doces. Em tese, parece uma coisa boa. Afinal, comida grátis, pequeno benefício, “cuidado com o colaborador” e todo aquele papo.
Mas tem uma coisa nessa dinâmica que sempre me incomodou muito.
O problema não é a fruta. Não é o salgado. Não é o doce. E muito menos as pessoas que pegam. Minha crítica é totalmente à empresa e ao jeito patético como esses “benefícios” são pensados.
Tudo é limitado. Colocam uma quantidade que claramente não atende todo mundo com tranquilidade. Aí, no momento em que a comida aparece, forma-se uma aglomeração enorme em volta da mesa. Quem chega cedo pega o melhor. Quem chega tarde come o que sobrou. Algumas pessoas acabam pegando mais porque sabem que vai acabar. Outras enchem bolso, guardam coisa, tentam garantir a sua parte.
E a cena toda é muito esquisita.
Parece menos um benefício e mais uma distribuição de ração. Não digo isso para humilhar os colegas, porque eles só estão reagindo ao sistema criado ali. A humilhação, para mim, vem justamente da empresa criar essa situação e ainda chamar isso de valorização.
Colocam adultos, profissionais, trabalhadores, numa lógica de escassez por um agrado mínimo. Em vez de ser um gesto de cuidado, vira uma disputa silenciosa por comida. Em vez de parecer generosidade, parece uma encenação barata de bem-estar corporativo.
E o mais bizarro é que provavelmente a empresa acha isso lindo. Deve ir para algum relatório interno como “ação de qualidade de vida”, “cuidado com o time”, “ambiente acolhedor”. Só que, na prática, o que aparece é outra coisa: gente se aglomerando em volta de uma mesa tentando garantir uma banana, um salgado ou um doce antes que acabe.