u/DiamondDeep8163

carta para Lua

Lua,
te escrevo da beira de uma madrugada
onde até os copos vazios parecem cansados de refletir meu rosto.

a cidade dorme como quem desiste,
e eu continuo acordado
colecionando ruídos ruidos que ninguem percebe,
a geladeira respirando,
um carro distante cortando a avenida molhada,
meu coração tropeçando no mesmo pensamento de sempre.

você nunca responde,
mas ainda assim é a única
para quem consigo confessar certas coisas.

hoje eu caminhei entre pessoas demais
e nenhuma delas percebeu
que havia um incêndio discreto acontecendo dentro de mim.
acho isso de certa forma engraçado e triste.

aprendemos cedo a sorrir com os dentes

enquanto apodrecemos em silêncio.

às vezes sinto que nasci tarde demais
para as coisas simples.
queria ter vivido numa época
em que cartas demoravam semanas,
em que amar alguém exigia distância e coragem,
em que tristeza não virava postagem
nem música de quinze segundos.
mas aqui estou,
fumando pensamentos pela janela,
olhando você pendurada
como uma cicatriz branca no céu
que o universo nunca conseguiu esconder.

eu queria te contar
que ainda guardo pessoas em lugares estranhos:
no refrão de certas músicas,
no cheiro da chuva batendo no asfalto,
na fumaça do café subindo devagar,
em um copo de cerveja derrubado no bar,
em algumas noites solitarias de domingo
onde tudo parece prestes a acabar.

tem gente que foi embora
e levou móveis inteiros de dentro de mim.
desde então os comodos vaziam ecoam.
ecoam os corredores,
ecoam as manhãs,

ecoa até minha cabeça doer.

mas eu continuo tentando amar o mundo, lua,

mesmo quando ele me devolve ferrugem.

talvez voce me entenda,
você também vive cercada de vazio
e mesmo assim continua brilhando.

isso me destrói um pouco.
porque eu passo dias inteiros
tentando parecer inteiro,
mas basta uma lembrança atravessar a noite
e tudo desmorona como prédio velho.

eu sou feito dessas demolições silenciosas
que vira escombro que ninguém fotografa.

queria encostar a testa em você
como quem encosta na parede fria do banheiro
depois de voltar bêbado para casa.

queria perguntar se existe algum lugar
onde a saudade finalmente dorme.
ou se ela cresce para sempre,
igual maré,
igual ferrugem,
igual você crescendo devagar

sobre os telhados da cidade.

enfim.

não escrevo esperando respostas.
só precisava que alguém soubesse
que ainda existe um homem aqui dentro
tentando sobreviver às próprias metáforas.

E se amanhã eu desaparecer um pouco,
se eu ficar quieto demais,
ou distante como luz antiga,
olha pela minha janela.
talvez eu esteja ali,
sentado no escuro,
tentando transformar tristeza
em alguma coisa bonita outra vez.

reddit.com
u/DiamondDeep8163 — 1 day ago
▲ 3 r/Poemas

carta para Lua

Lua,
te escrevo da beira de uma madrugada
onde até os copos vazios parecem cansados de refletir meu rosto.

a cidade dorme como quem desiste,
e eu continuo acordado
colecionando ruídos ruidos que ninguem percebe,
a geladeira respirando,
um carro distante cortando a avenida molhada,
meu coração tropeçando no mesmo pensamento de sempre.

você nunca responde,
mas ainda assim é a única
para quem consigo confessar certas coisas.

hoje eu caminhei entre pessoas demais
e nenhuma delas percebeu
que havia um incêndio discreto acontecendo dentro de mim.
acho isso de certa forma engraçado e triste.

aprendemos cedo a sorrir com os dentes

enquanto apodrecemos em silêncio.

às vezes sinto que nasci tarde demais
para as coisas simples.
queria ter vivido numa época
em que cartas demoravam semanas,
em que amar alguém exigia distância e coragem,
em que tristeza não virava postagem
nem música de quinze segundos.
mas aqui estou,
fumando pensamentos pela janela,
olhando você pendurada
como uma cicatriz branca no céu
que o universo nunca conseguiu esconder.

eu queria te contar
que ainda guardo pessoas em lugares estranhos:
no refrão de certas músicas,
no cheiro da chuva batendo no asfalto,
na fumaça do café subindo devagar,
em um copo de cerveja derrubado no bar,
em algumas noites solitarias de domingo
onde tudo parece prestes a acabar.

tem gente que foi embora
e levou móveis inteiros de dentro de mim.
desde então os comodos vaziam ecoam.
ecoam os corredores,
ecoam as manhãs,

ecoa até minha cabeça doer.

mas eu continuo tentando amar o mundo, lua,

mesmo quando ele me devolve ferrugem.

talvez voce me entenda,
você também vive cercada de vazio
e mesmo assim continua brilhando.

isso me destrói um pouco.
porque eu passo dias inteiros
tentando parecer inteiro,
mas basta uma lembrança atravessar a noite
e tudo desmorona como prédio velho.

eu sou feito dessas demolições silenciosas
que vira escombro que ninguém fotografa.

queria encostar a testa em você
como quem encosta na parede fria do banheiro
depois de voltar bêbado para casa.

queria perguntar se existe algum lugar
onde a saudade finalmente dorme.
ou se ela cresce para sempre,
igual maré,
igual ferrugem,
igual você crescendo devagar

sobre os telhados da cidade.

enfim.

não escrevo esperando respostas.
só precisava que alguém soubesse
que ainda existe um homem aqui dentro
tentando sobreviver às próprias metáforas.

E se amanhã eu desaparecer um pouco,
se eu ficar quieto demais,
ou distante como luz antiga,
olha pela minha janela.
talvez eu esteja ali,
sentado no escuro,
tentando transformar tristeza
em alguma coisa bonita outra vez.

reddit.com
u/DiamondDeep8163 — 1 day ago
▲ 3 r/POESIA

Lua,
te escrevo da beira de uma madrugada
onde até os copos vazios parecem cansados de refletir meu rosto.

a cidade dorme como quem desiste,
e eu continuo acordado
colecionando ruídos ruidos que ninguem percebe,
a geladeira respirando,
um carro distante cortando a avenida molhada,
meu coração tropeçando no mesmo pensamento de sempre.

você nunca responde,
mas ainda assim é a única
para quem consigo confessar certas coisas.

hoje eu caminhei entre pessoas demais
e nenhuma delas percebeu
que havia um incêndio discreto acontecendo dentro de mim.
acho isso de certa forma engraçado e triste.

aprendemos cedo a sorrir com os dentes

enquanto apodrecemos em silêncio.

às vezes sinto que nasci tarde demais
para as coisas simples.
queria ter vivido numa época
em que cartas demoravam semanas,
em que amar alguém exigia distância e coragem,
em que tristeza não virava postagem
nem música de quinze segundos.
mas aqui estou,
fumando pensamentos pela janela,
olhando você pendurada
como uma cicatriz branca no céu
que o universo nunca conseguiu esconder.

eu queria te contar
que ainda guardo pessoas em lugares estranhos:
no refrão de certas músicas,
no cheiro da chuva batendo no asfalto,
na fumaça do café subindo devagar,
em um copo de cerveja derrubado no bar,
em algumas noites solitarias de domingo
onde tudo parece prestes a acabar.

tem gente que foi embora
e levou móveis inteiros de dentro de mim.
desde então os comodos vaziam ecoam.
ecoam os corredores,
ecoam as manhãs,

ecoa até minha cabeça doer.

mas eu continuo tentando amar o mundo, lua,

mesmo quando ele me devolve ferrugem.

talvez voce me entenda,
você também vive cercada de vazio
e mesmo assim continua brilhando.

isso me destrói um pouco.
porque eu passo dias inteiros
tentando parecer inteiro,
mas basta uma lembrança atravessar a noite
e tudo desmorona como prédio velho.

eu sou feito dessas demolições silenciosas
que vira escombro que ninguém fotografa.

queria encostar a testa em você
como quem encosta na parede fria do banheiro
depois de voltar bêbado para casa.

queria perguntar se existe algum lugar
onde a saudade finalmente dorme.
ou se ela cresce para sempre,
igual maré,
igual ferrugem,
igual você crescendo devagar

sobre os telhados da cidade.

enfim.

não escrevo esperando respostas.
só precisava que alguém soubesse
que ainda existe um homem aqui dentro
tentando sobreviver às próprias metáforas.

E se amanhã eu desaparecer um pouco,
se eu ficar quieto demais,
ou distante como luz antiga,
olha pela minha janela.
talvez eu esteja ali,
sentado no escuro,
tentando transformar tristeza
em alguma coisa bonita outra vez.

reddit.com
u/DiamondDeep8163 — 6 days ago