
O termo mais mal compreendido dos psicodélicos
A morte do ego é certamente a experiência mais profunda e memorável que um indivíduo pode vivenciar em uma jornada psicodélica, mas o que significa exatamente esse conceito ?
O que é realmente viver isso da forma verdadeiramente sincera e fiel ao conceito original e primário deste termo ?
Vemos tanto essas palavras sendo citadas por diversas pessoas em diversas situações, mas será que realmente é tão abrangente e comum assim ? Vale a pena nos aprofundarmos mais no efeito fenomenológico mais famoso e impactante dos psicodélicos clássicos…
O que é a morte do ego ?
De forma direta e objetiva, a morte do ego é descrita como um colapso temporário da estrutura psicológica que sustenta a sensação de "eu".
Mas afinal o que é o ego em si ?
O ego é uma junção de fatores, mas a raiz primordial onde o ego surge é a simples e clara sensação de separação entre o observador e a manifestação do universo e da vida em si.
Antes mesmo da linguagem, do primeiro pensamento, surge uma instantânea e brusca sensação de que existe um ser separado de todo o resto e um resto separado do ser, neste momento nasce o indivíduo, a coisa em si, a maior ilusão fabricada pela mente, o processo se torna o autor de todos os outros processos, o que era para ser somente mais um pensamento, se tornou o dono de todos os pensamentos.
Dentre outras características que englobam o ego as mais essenciais são :
⁃ Identidade (o senso de ser algo)
⁃ Narrativa pessoal (a ideia de que existe um sujeito experienciando sequencialmente a linha do tempo)
⁃ Sensação de separação
⁃ Continuidade psicológica (semelhante a narrativa)
⁃ Nome
⁃ Passado
⁃ Preferências
⁃ Sensação de controle
A morte do ego não parece uma experiência que acontece com você.
Parece o desaparecimento completo daquilo que chamava a si mesmo de "você".
Diferença entre dissolução do ego e morte do ego
Isso é algo muito fácil e comum de se misturar e confundir o indivíduo sobre a natureza de sua experiência, mas existe uma diferença clara entre essas duas grandes experiências…
A dissolução parcial do ego é o estado onde :
⁃ Identidade enfraquece (as vezes bastante)
⁃ Fronteiras psicológicas diminuem
⁃ Introspecção aumenta (as vezes de forma significativa)
⁃ Emoções se tornam oceânicas
⁃ Sensação de conexão aparece
Mas durante tudo isso ainda existe "eu estou experienciando isso".
Você ainda sabe :
⁃ quem é
⁃ onde está
⁃ o que tomou
⁃ que aquilo vai passar
Bastante comum em :
⁃ 100-250ug de LSD
⁃ 2-4g de psilocibina
⁃ Estados meditativos
Morte do ego
Aqui a coisa muda de categoria…
A estrutura narrativa entra em colapso.
ocorre :
⁃ Perda do nome (literalmente esquecer o nome de nascença)
⁃ Perda da linguagem interna (as vezes não é possível entender o próprio pensamento, soando apenas como um ruído em alguns momentos)
⁃ Perda do conceito de humanidade
⁃ Perda da memória autobiográfica
⁃ Impossibilidade de distinguir "eu" e "realidade"
⁃ Sensação de eternidade
⁃ Sensação de ter morrido (muita gente subestima o quão real e avassalador isso é presente em uma verdadeira morte do ego, o próprio nome em si já diz "morte" muitas vezes não costuma ser apenas simbólico)
⁃ Sensação de retorno ao absoluto (em termos de visão é relatado como uma clara luz branca tão radiante quanto o sol e tão brilhante quanto um diamante)
E o principal, não existe mais alguém ali para interpretar a experiência.
Geralmente só é reconhecido e os pontos ligados um bom tempo após a experiência ter sido minimamente digerida pela pessoa.
Como geralmente começa
Tento classificar aqui uma progressão de como as coisas vão se escalando.
Fase 1 ➡️ Intensificação
⁃ Aumento absurdo de profundidade emocional
⁃ Pensamento acelerando muito
⁃ Sensação de "algo grande está vindo"
⁃ Realidade ficando estranha em um tom de desrealização
⁃ Loops
⁃ Déjà vu
⁃ Sincronicidades
⁃ Dissolução da percepção
Fase 2 ➡️ Resistência
A fase mais decisiva, onde o ego percebe que está morrendo.
Então começa :
⁃ Medo primal (conhecido também como medo sem objeto)
⁃ Necessidade de controle
⁃ Tentativa de se lembrar quem é
⁃ Tentar "voltar"
⁃ Olhar o celular compulsivamente
⁃ Buscar confirmações da realidade
⁃ Medo de enlouquecer
⁃ Sensação de estar preso eternamente (as vezes sentido como um purgatório ou julgamento divino)
As bad trips mais aterrorizantes vem da tentativa de resistir ao processo.
Fase 3 ➡️ Ruptura
Esse é o Limiar.
⁃ Sensação de atravessar algo
⁃ Explosão branca (a mesma luz citada anteriormente)
⁃ Colapso da realidade
⁃ Silêncio absoluto
⁃ Sensação de morrer literalmente
⁃ Dissolução no infinito
⁃ Percepção não-dual
Nesse ponto o tempo e identidade desaparecem completamente.
A experiência de unidade
É onde surgem :
⁃ Ausência de separação
⁃ Sensação de Consciência universal
⁃ Amor absoluto
⁃ Compreensão instantânea
⁃ Impossibilidade de traduzir em linguagem
⁃ Percepção de que tudo é a mesma coisa se expressando de formas diferentes
É a experiência mais transcendental que pode ser vivenciada.
As sensações mais comuns e memoráveis durante o ápice
Novamente citando algumas que podem parecer repetitivas, mas realmente são tão proeminentes que é inevitável cita-lás diversas vezes…
⁃ Sensação de eternidade
⁃ Ausência completa de tempo
⁃ Sensação de conhecer tudo
⁃ Terror absoluto ou amor absoluto ou ambos simultaneamente ou intercalados
⁃ Sensação de lembrar algo primordial
⁃ Sensação de renascimento
⁃ Percepção hiper-real
⁃ Colapso da linguagem
⁃ Paradoxos impossíveis
⁃ Consciência pura
É frequentemente reconhecido como mais real que a realidade.
Como reconhecer que está acontecendo ?
Isso é muito importante, mas vale enfatizar que nem sempre ira adiantar muito, pois a supressão de memória pode ser tão severa que até mesmo lembrar-se de tentar reconhecer os sinais pode falhar e dissolver-se na experiência.
Sinais clássicos :
⁃ "acho (ou certeza) que definitivamente fiquei louco"
⁃ "acho (ou certeza) que morri"
⁃ Incapacidade de lembrar quem é
⁃ Perda de referência temporal
⁃ Sensação de estar se fundindo com tudo
⁃ Incapacidade de sustentar narrativa pessoal
⁃ Sensação de inevitabilidade
E algo muito pertinente sobre isso é que : a esmagadora maioria das pessoas só reconhecem que tiveram uma morte do ego após retornarem da experiência, geralmente muitas horas a dias depois.
Durante o estado não existe estrutura suficiente pra categorizar o que está acontecendo.
Como se comportar caso aconteça
Falar disso é muito difícil, porque antes de entrar no abismo da consciência é fácil tentar criar um roteiro de preparação, mas quando acontece dificilmente conseguimos ter alguma noção eficiente para navegarmos nessas ondas turbulentas, se trata mais de um processo intuitivo.
Mas basicamente o pior erro é : resistir violentamente.
O ideal :
⁃ Respirar calmo e profundamente pelo abdômen
⁃ Aceitar
⁃ Não lutar
⁃ Evitar estímulos caóticos
⁃ Lembrar que o estado é transitório (ironicamente "lembrar" rs)
⁃ Reduzir necessidade de controle
Não é algo simples de navegar e muitas vezes vamos passar apuros mas é assim mesmo, te apresento a psicodelia 🤗
A parte transformadora e os dois lados da moeda
Aqui entra o ponto mais importante do que a experiência em si, o resultado na vida.
É o mais poderoso dos fenômenos presente nos efeitos dos psicodélicos pois tem o fortíssimo potencial de causar tais mudanças na vida do indivíduo :
⁃ Redução do medo da morte
⁃ Mudanças existenciais
⁃ Quebra de padrões
⁃ Sensação de renascimento
⁃ Aumento da espiritualidade
⁃ Reavaliação da vida
⁃ Humildade e reverencia profunda á vida
⁃ Percepção da fragilidade do ego
O outro lado da moeda - essa mesma transformação pode acabar indo para um aspecto mais perturbador e caótico também…
Algumas pessoas ficam desestabilizadas, a experiência pode ser muito aterrorizante, e é comum que nos primeiros meses seja um conflito entre beleza e vazio-confusão sobre tudo, é totalmente valido colocar que nem toda morte do ego é positiva imediatamente, mas com o tempo costuma melhorar e se estabilizar gradativamente.
A integração e aterramento são fundamentais.
As experiências mais transformadoras frequentemente são justamente aquelas que pegam a pessoa completamente despreparada, porque não houve tempo do ego construir expectativas ou fantasia espiritual em cima.
Com certeza ter passado por uma morte do ego profunda é a experiência mais intensa, bela e aterrorizante que eu já pude viver.
Não porque algo extraordinário foi observado, mas porque por algumas horas deixou de existir alguém separado para observar.
Você é Brahman.
Dediquei um bom tempo pra categorizar e esquematizar tudo de forma bem clara e com uma linguagem bem acessível, feito com muito carinho espero que gostem 🙏🏼
Diferente dos meus outros posts esse eu quase não usei IA pra nada, então espero que gostem da minha escrita e maneira de falar 😉