Bom dia r/portugal, vim cá aproveitar a anonimidade desta conta que tenho no Reddit para vir gritar para o vazio.
Para contextualizar, venho de uma família açoriana (e não das áreas desenvolvidas), com pais que deixaram o secundário por fazer, apesar de ter avós com algum dinheiro na época (mas sem direito à reforma 😅). Além disso, os meus pais sucumbiram à pressão social de se casarem e terem uma casa nos anos 2000 e então acabaram endividados na casa das centenas de milhares e divorciados como uma boa família portuguesa. Com isto tudo quero dizer que vivi uma infância um pouco difícil, apesar das coisas terem encaixado mais na adolescência, pois a minha mãe foi promovida. (Sei que há piores do que eu though)
Ora, eu sou a segunda pessoa da minha família imediata a ingressar na universidade, sendo a outra o meu tio materno que tirou um curso em música até o doutoramento no início da década passada se me recordo. Muita pressão foi posta sobre mim e inicialmente eu nem era para ter vindo, mas convenci o pessoal a deixar-me ir com as minhas generosas poupanças e uma mesada partilhada por 4 membros da família para poder pelo menos comer e pagar renda (tive sorte com uma renda bastante baixa). Nunca fui de festejar, esbanjar dinheiro, comprar coisas, comer fora... (sempre fui antissocial devido ao isolamento de estar nas ilhas) Acho que só tive de tocar nas minhas poupanças para comprar um portátil e telemóvel novo depois de um acidente, consigo rentabilizar a mesada toda para o mês. Infelizmente, também tenho outras despesas, estas cobridas pelos meus pais, porque são relacionadas com saúde, e eles claro que se importam com isso. Gasto mais de 200€ por mês em medicamentos e consultas, porque tenho uma condição dermatológica para a qual não há cura e tenho condições psicológicas que necessitam medicação relativamente cara para eu poder viver normalmente.
Agora que estou a terminar o meu curso em media e tecnologia este ano, cabe-me decidir se faço mestrado, se fico cá, se faço lá fora, se vou trabalhar... Enfim... A minha família está ainda dividida entre quem quer e não quer pagar pelo meu mestrado por isso nem sei se tenho esse privilégio. Atualmente estou a viver na mesma região do meu tio, em Aveiro, onde o custo de vida era barato na altura, e vejo que para viver sozinha atualmente cá ainda são uns valentes 1,200€-1,400€ em média, isto desmoraliza um bocado, especialmente considerando que até os meus ex-colegas, que estão a/acabaram de estudar engenharia em Lisboa, estão à rasca para arranjar trabalho (os que têm não estão muito melhores). Convém também adicionar que esse tio passou a sua vida quase toda em instabilidade apesar de ter média de 19 na universidade e imensas conexões e skills, até finalmente conseguir algo aos 37-38.
Como eu estou inserida num curso que mistura a parte criativa digital, partes de ciências sociais/psicologia e um bocado de informática (também fiz cadeiras de programação mais avançada por causa disto), estou a ver que tenho muita bagagem e tenho de decidir no que me devia especializar. Pedi orientações a colegas e redditors do estrangeiro sobre como o mercado está... Não está bom... De pensar que a parte computacional do curso, que sempre associei com maior sucesso devido à febre dos anos 2000-2010 com informática, é a que está a ficar cada vez pior no resto do mundo!
As despesas acrescentadas que tenho, o custo de vida no país, os salários e empregabilidade dos meus colegas, amigos e terceiros, o estado do resto do mundo, o facto dos meus pais estarem limitados a um local onde eu tenho ainda menos chance de ter emprego... A este ponto até estou a considerar implorar à minha família canadiana para me alojarem lá para ter mais chances de trabalho, mas nem sei se vai fazer muita diferença no longo-termo. Estamos todos com uma crise de habitação insana que só me faz pensar que eu não vou conseguir ser independente no futuro e que vou ter de me renegar a voltar a viver com os meus pais, ver se arranjo alguma espécie de freelance ou teletrabalho (se consegir trabalho remoto para o estrangeiro, ainda melhor) e esperar que algo caia do céu.
Vejo tantos jovens na minha situação mas que têm o conforto e as oportunidades que originam de viverem em grandes cidades, tal como vejo uns quantos que nem universidade conseguem ter lá nos Açores devido ao estado monetário daquela gente, afinal é uma região com muita pobreza e uma logística de deslocação horrível. Parece que estou acima da média no meu local de origem mas parece que estou abaixo da média no resto da Europa, é um limbo bastante tenebroso.
Gostava muito de viver em Portugal, desde que vim para o continente ainda estou apaixonada por todas as cidades que visitei, mas acho que isso não é realista. Obrigada pela atenção.