( Desçam até ao # para saltar parte da historia pessoal e ir directo ao assunto )
Vou começar pelo fim.
Hoje em dia é muito fácil apontar o dedo e dizer “estudasses” ou “fizeste merda”, como se a vida fosse linear. Como se fosse A + B = C.
Não existem duas vidas iguais. Há demasiados fatores e contextos diferentes. E sinceramente, acho ridícula a facilidade com que se julga quem, como eu, está na merda.
E atenção: eu não estou a fugir à minha responsabilidade. Tenho culpa em muita coisa, sem desculpas. Mas também não é só isso.
Nasci em 87, em Quarteira. Na primária, até ao 3º ano, a escola era… quase nada. O 1º ano foi basicamente para “ambientar”: horários, regras, escrever o nome, vogais, pouco mais. No 2º ano, quase igual.
Os meus pais começaram a separaram-se quando eu tinha 3 anos. A meio da 3ª classe, a minha mãe mudou-se para a zona centro. Resultado: chumbei o 3º ano.
Fui criado essencialmente pela minha avó, que não sabia ler nem escrever. A minha irmã tinha problemas graves de saúde...passei anos a vê-la ter convulsões e situações em que parecia que ia morrer.
Isto não é vitimização. É contexto. E durante muito tempo achei que era tudo normal.
Outra coisa importante: neste momento não tenho apoio familiar. Cortei relações com os meus pais por serem um ambiente tóxico. A minha avó ainda é viva, mas já não tem condições para ajudar, e não a quero meter nos meus problemas. A restante família com quem ainda falo simplesmente não tem como ajudar, mesmo que queira.
Também sinto que uma parte dos meus problemas vem de uma certa ingenuidade minha. Durante muito tempo fui acreditando nas pessoas e nas oportunidades sem pensar o suficiente nas consequências. Ainda hoje pago um bocado esse lado mais “inocente”.
Um exemplo disso foi ter aceite um trabalho numa área criativa, que para mim era quase um sonho. A promessa era uma coisa, mas na prática não se concretizou como esperado e acabou por me deixar numa situação financeira pior. Acreditei demasiado na ideia de que ia dar um salto...mas só afundei no buraco.
Avançando para hoje:
Tenho quase 40 anos e sinto-me preso. Não posso falhar dias de trabalho porque isso significa não comer ou não pagar renda. Não consigo mudar de casa porque não tenho dinheiro para caução + renda + despesas.
Pago 500€ por um T0 (por baixo da mesa) e ganho cerca de 1000€. Trabalho duro, físico, sem grande margem para parar. As costas já deram sinais no passado, mas continuo porque… não há opção.
Tenho dois gatos. Para mim são família, não os vou abandonar nem dar... podem julgar isso à vontade, mas é um limite que não passo.
Já emigrei e fui deportado por confiar num patrão ( Québec). Já tive vários trabalhos, alguns falharam por minha culpa, outros nem por isso...uma mistura de tudo.
Resumindo: sinto-me num beco sem saída.
O plano que tenho neste momento é tentar mudar-me para a cidade, porque é aí que consigo combinar dois trabalhos e aumentar o rendimento. O problema é conseguir dar o salto inicial (caução, renda, etc.).
Também vou tentando vender arte (pinto), pode ser uma ajuda.
Pensei em tirar um curso, mas não faço ideia de quê. Gostava de sair de trabalho extremamente físico e mal pago, mas não sei qual seria um caminho realista. Sou criativo gosto de artes no geral e tambem gosto da área humana.
Outra hipótese que considerei foi emigrar para a Holanda, mas não através de alojamentos de trabalho, porque não aceitam animais. A ideia seria juntar dinheiro aqui em Portugal primeiro e depois ir já com condições para levar os meus gatos comigo...porque neste momento não tenho ninguém com quem os possa deixar.
Portanto, pergunto mesmo a sério:
Se estivessem na minha situação, o que fariam?
Sério.
Cursos, áreas, estratégias, ideias — tudo é bem-vindo. Algo prático, realista, para um “gajo normal” que precisa de sair disto.
Não tenho medo de trabalho, sei falar inglês, algum francês e não tenho carta nem carro...
Obrigado a quem leu até aqui.