O pastor se fez de cupido para mim e uma adolescente.
Sou homem hétero, acima dos 35 anos, sexualmente ativo, e não sou casado.
Tenho uma empresa, pratico esporte com regularidade, e alguns de projetos paralelos que disputam meu tempo livre com a mesma intensidade que relacionamentos já disputaram, ambos com as mesmas incidências de Ghosting. Realmente acho que sou solteiro por escolha (ou pelo menos é o que gosto de acreditar), e me sinto, na maior parte dos dias, genuinamente satisfeito com a vida que tive sorte de ter e conseguir montar até aqui. Tive um período difícil quando perdi meus pais na década passada, e herdei uma casa que não conseguiria cuidar direito, não fosse pela Josie.
A Josie é minha fiel escudeira e faxineira há quase dez anos. Uma excelente pessoa, praticamente uma tia que eu pago para me ajudar aqui em casa. Gosto muito dela e vice-versa. De vez en quando, ela me dá umas alfinetadas sobre relacionamento, mas sempre interpretei como birncadeira. Mês passado, ela me convidou para uma solenidade na igreja evangélica que frequenta. Ela ajuda a organizar os trem lá há um tempo, e haveria um evento no final de semana de dias das Mães. Ela sabia que eu não tinha planos, e por isso me convidou. Confesso que tenho um certo preconceito com a religião evangélica, mas respeito muito a fé e a amizade que temos, então não hesitei em aceitar o convite.
O evento foi na cidade dela (interior de MG), e começava na sexta à noite, culminando num almoço de domingo (dia das mães). Foram umas boas 4 horas e viagem, o que não é nem absurdo de cansativo, nem algo simples de se fazer toda semana, mas como eu gosto de pegar estrada achei que poderia ser interessante.
Aluguei um airbnb bacana, fiz uma agenda pra conhecer as cachoeiras , restaurantes, e talvez barzinhos da região, etc. Cheguei na sexta depois do almoço, e depois de me ajeitar na casa, tomar banho, e me arrumar, fui pra igreja como combinado com a Josie (Faxineira). Ela me apresentou para as vizinhas, pras amigas de infância, e finalmente pro Pastor, que ficou super feliz de me conhecer. Perguntou o que eu fazia, quantos anos tinha, se era irmão de fé. Apesar de ser agnóstico, mencionei que ui criado católico, só para ser político mesmo e evitar climão, fazerpapo, etc. Perguntou se eu tinha esposa, filhos, e eu disse que tinha só um gato para cuidar. Ele se surpreendeu, deu pra ver em sua expressão. "Temos que mudar isso!", como se eu estivesse suplicando por ajuda haha
O culto começou, e eu fui me acomodando no banco com aquela disposição de quem está presente no corpo, mas viajando na cabeça. Não me lembro do que eu pensava, provavelmente na trilha do dia seguinte, ou vendo as fotos do meu gato com a petsitter...até que ouvi meu nome.
"Fulano, levanta aí rapidinho, venh ler uma passagem para as irmãs apreciarem o varão."
Levantei no piloto automático, só percebi o que tinha feito quando já estava de pé e o pastor me chamava com a mão, aquele gesto universal de vem, vem. Fui, com o sorriso mais amarelo da minha história recente, sem entender exatamente o que estava acontecendo, mas determinado a não desrespeitar o espaço de ninguém. Ouvi vários "sim!", alguns "amém" entusiasmados e risadinhas que soaram dignas de quinta série.
Não lembro o que li (era alguma passagem que o pastor indicou), mas li com voz grave, pausada, que às vezes surpreende as pessoas e me rende elogios. Não é mérito meu, nunca treinei a voz ou a oratória, acho que é algo inerente mesom. Um murmurinho correu enquanto eu ainda estava nsa primeiras frases. O pastor soltou um "Ele é bom, ele é bom. Olha esse dom desse varão."
Terminei, voltei para o meu lugar, e senti que algo tinha mudado no ar da sala, como se estivesse atravessando neblina ou gelatina, de tão espesso que ficou o clima. Cabeças viravam discretamente. Olhares que fingiam não ser olhares. Uma vibe diferente, que sempre vi em barzinhos e baldas, mas na igreja era novidade. E lá no presbitério, a Josie estava com um sorriso tãolargo que parecia costurado, os olhos saltando de banco em banco conferindo reaçoes. Percebi que talvez eu tivesse sido escalado para algo que ninguém me explicou direito.
Quando o culto terminou, fiquei esperando a Josie para me despedir. Estava um pouco ansioso para voltar ao Airbnb, me jogar no YouTube e dormir cedo antes da trilha. Vieram em grupos pequenos, quase sempre de duas ou três, com aquela abordagem que parece casual demais pra ser só educado, sabe? Uma senhora de uns 45 anos me perguntou se eu já conhecia a região, com um sorriso que precia mais longo do que necessário. Outra, uns dez anos mais jovem, comentou que minha leitura tinha sido "uma bênção", e tocou brevemente no meu braço ao dizer isso. Uma terceira, mais velha, perguntou se eu ia ao culto do sábado também, porque "a louvor de amanhã é muito especial". Respondi a tudo com cordialidade e nenhum compromisso. Me despedi da Josie (que tava radiante demais para ser coincidência), e saí pensando que o fim de semana tinha sido simplesmente interessante.
No sábado, fiz o que havia planejado. Cachoeira de manhã, almoço num boteco com vista pra serra, cochilo merecido à tarde. Às dezenove, estava na porta da igreja.
A Josie me encontrou na entrada. Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ela já me informava, com um tom entre relato e confissão, que muitas irmãs haviam perguntado sobre mim depois do culto de sexta. Como eu era, do que eu gostava, se eu era comprometido. Que algumas tinham ido conversar com o pastor. Eu ri e disse, sem pensar muito: "Haha, quem sabe, né?" QUE FRANCAMENTE, É UM "NÃO" EDUCADO, CERTO?
Aparentemente, isso foi interpretado como um sim formal. Durante os momentos do culto, percebi olhares que eu já reconhecia. Bizarramente, o pastor também me procurava com os olhos e dava um "sorrisinho" que me deixava desconfortável. Depois do culto, quando me levantei rapidinho pra me despedir da Josie, o pastor me abordou antes, com a sutileza dum mastodonte. "Fulano, deixa eu te apresentar a Ana. Ela é uma das nossas irmãs abençoadas, cresceu aqui na igreja, tem um coração lindo, infinito."
E lá estava ela, uma MENINA me olhando e sorrindo, mas que ao meu ver tava terminando de aprender equação de segundo grau. Foram provavelmente os instantes socialmente MAIS WTF?? da minha vida. "Ana terminou o ensino médio com vários méritos e está numa fase aberta para novas histórias" (essa frase do "novas histórias" me pegou muito) "Ana comentou que achou muito interessante sua profissão. Vocês dois têm muito em comum! O Senhor trabalha de formas misteriosas. Quemd iria" algo assim.
Fui educado. Fui gentil, respondi as perguntas que ela e o pastor faziam (ele ficou presente durante toda a interação). Fui embora o mais rápido que pude. Confesso que eu não queria desrespeitar a garota, nem diminuí-la, nem rejeitá-la. Me senti simultaneamente, burro e covarde por não ter cortado essa hisória ali mesmo.
Fiquei pensando na tentativa de "matchmaking" mal-sucedida do pastor. Nos planos que a Josie claramente havia feito nos bastidores, com a melhor das intenções. Fiquei pensando na Ana, com se sorriso claramente ingênuo de dezenove anos, naquela vida que talvez estivesse sendo construída tijolo por tijolo, mas por outras mãos. Não acho que me lembro da aparência dela, mas me lembro do sorriso sincero que ela trazia, e isso me pegou dum jeito agridoce foda. Aquela abertura criada por terceiros, para """""novas histórias""""", como se o capítulo dela e o meu pudessem pertencer ao mesmo livro. Que bizarrice sem tamanhos. Sobre o fato de que, quando eu estava na idade dela, eu ainda não sabia quem eu era. Que a pessoa que sou hoje é composta pelos erros que ela ainda vai cometer, por escolhas que ela ainda nem imagina que terá de fazer. Não existe simetria nisso. E fingir que poderia existir um relacionamento sincero entre um homem de 35+ e uma garota de 19, seria uma forma elegante de desonestidade moral. Como pode um homem solteiro acima dos trinta ser visto como uma lacuna a ser preenchida, onde a apresentação de uma moça de dezenove anos para esse homem parece uma solução razoável, onde o casamento é menos uma escolha e mais uma conclusão social.
Voltei pra BH no domingo depois do almoço, que comi num restaurante na cidade vizinha. Não quis lidar com o que provavelmente seria uma sequencia de momentos mais desconfortáveis ainda.
Hoje, a Josie perguntou o que eu tinha achado, eu francamente não soube articular essa divergencia de idade e espectativas. Disse que tinha gostado muito da hospitalidade. Ela me perguntou "o que eu tinha achado das Varoas"
Eu só respondi "Ques varoas?"
Ela riu e voltou a passar o café. "Várias me perguntaram sobre você!"
Eu só ri e botei o fone de ouvido. Josie foi embora e eu escrevi isso aqui. Acho que ficou grande, e provavelmente poucas pessoas lerão; mas acho que foi crucial para externalizar e organizar pensamentos. Enfim, amanhã tenho terapia e isso com certeza será o tema da sessão. Enfim, fica aí o relato.