O ventre acolhe o feto
O ventre acolhe o feto,
Ainda sem ambos saberem,
A mãe desconfia das mudanças no seu corpo,
O pai não pensa em nada.
O feto vai crescendo,
A mãe sente ainda mais,
Desconfia, tem quase a certeza,
Do que lhe dizem ou do que já passou.
O pai não imagina.
O feto cresce e exige cada vez mais,
A mãe tem a certeza, alguém o confirmou,
O pai fica a saber.
O feto continua a crescer,
A barriga da mãe, também.
O pai observa e divulga nas ruas, nas tabernas,
A dúvida coloca-se.
Será menino ou menina,
Que importa isso, diz a mãe,
Mas o pai queria um rapaz,
A mãe, uma rapariga,
O feto não quer saber do que pensam.
Diz o povo: “que venha são e escorreito”,
Nasce num final de tarde de Junho,
Gordinho, quase cinco quilos.
A mãe não o viu nascer,
O pai também não,
Só ele se apercebeu de uma palmada,
E chorou, pela primeira vez.
A mãe, horas depois, abraçou-o,
O pai não.
Estava fora, bem longe.
Ele não quer nada,
Apenas aconchego e alimento.
A mãe assegura-lhe ambas as necessidades,
O pai, também.
Continuam com o cordão umbilical ligado,
O pai não.
Desenho: u/BSD