Agora a sério, às vezes penso nesta merda e resolvi que vir gritar a história para dentro do balde pode ajudar-me a fazer a extensa catarse de que tanto resolvi necessitar.
Eu lembro-me perfeitamente da miúda, tão perfeitamente quanto uma memória pode ser, depois de se sentar durante mais de duas décadas entre o lugar onde deixei as chaves e os títulos dos discos dos Guano Apes.
Lembro-me que ela era muito bonita, pele absoluta e perfeitamente morena e eventualmente um pouco magra. Lembro-me, no final da noite, de ela estar a brincar com a muleta de uma amiga que tinha partido o pé.
Claro que não aconteceu nada entre mim e ela, sou eu! Remember? Posso dizer que ainda bem que não aconteceu nada, naquela altura se eu tivesse tido alguma coisa com ela tinha vindo de férias com uma depressão. Os meus pais não iam querer saber, talvez até fosse a melhor opção, mas tenho a certeza que nunca mais iria conseguir voltar para a minha bolhinha de acne e solidão e continuar a fazer o meu papel de jovem produtivo e cumpridor do sistema. Neste universo alternativo em que, de algum modo, de alguma forme, me foi permitido tocar aquela pele perfeitamente morena, eu segui um de três caminhos e há apenas três.
Primeiro e mais provável: depressão seguida de alcoolismo, incapacidade de prosseguir qualquer tipo de carreira, a relação com os meus pais e o resto da família colapsaria em dois ou três anos, sendo posteriormente uma corrida entre a cirrose e o suicídio para ver que me levava primeiro. Estou a ser dramático, claro está! Na pior das hipóteses chumbava a uma cadeira e vestia-me de preto durante mais uns tempos.
Segundo. A injustiça social despertava a minha consciência política antes da minha consciência financeira ou pragmatismo. Sozinha na minha cabeça a recém criada consciência política faria o que todas as crianças fazem quando se vêm sozinhas em casa e dessa masturbação intelectual resultaria uma e um só corolário: as injustiças sociais (como eu nunca ter tocado a pele dela) devem acabar! O resto seria história e eu agora era presidente de junta do PS.
Terceiro. A legião estrangeira. Em vez do desespero era determinado um qualquer plano para voltar a estar com ela, quando anos mais tarde lhe apareço à porta com uma Harley Dayvidson e lhe mostro a tatuagem que fiz com o nome dela (logo ao lado do símbolo do One Piece) a reação dela nem sequer é de nojo: é de medo. Este simples evento desencadearia outro, e outro, e outro, até que no final da linha está um qualquer país africano e um homem magro que diz meia dúzia de palavras por dia, a farda cai-lhe pelos ombros como se fosse demasiado grande para ele, dos seus lábios pende um eterno cigarro cuja cinza marca as páginas de uma edição de bolso de “Por quem os Sinos Dobrão”. Ele arruma o livro, pega numa AK-47 adaptada para tiro de longa distancia e caminha para um mato serrado enquanto as sombras se esticam atrás dele. Um soldado negro olha-o com as mãos tremendo e benze-se uma e outra vez. Foi capturado no dia anterior e teve de confessar a localização da sua unidade. Ele sabe que nenhum dos seus camaradas irá ver o próximo nascer do sol.
Uns anos depois valei dela, disseram. “ya no ano passado ela enrolou-se com o…”, vamos chamar-lhe Rogério. Nem a um nome teu tens direito, Rogério. A verdade, e aqui claro está podem acreditar em mim ou não, é que eu conheço o Rogério e sei que o Rogério, que nunca passou do mais reles soldado do nosso mercado de trabalho, esse Rogério, que está a uns escassos pontos de se poder considerar um atrasado mental, esse Rogério que, aposto, se masturba a ver a casa dos segredos, eu sei que esse Rogério é uma espécie de figurante genérico do mundo sem interesse ou qualidade que se lhe aponte. Fiquei fodido. Porquê o Rogério? Alguém havia de ser, certo? Alguém que não eu, correto? Já sabemos as terríveis coisas que aconteceriam ao mundo se tivesse sido eu, bah! Paciência.
Encontro o Rogério no outro dia, está com a família, careca e burro, mas boa pessoa, sim o Rogério seja uma boa pessoa. Gostava de lhe ter perguntado se era verdade, se de facto ele se tinha enrolado com ela, mas não o faço, por respeito à mulher dele, mas sobretudo por respeito à minha própria memória, prefiro poder pensar que nunca se passou e que em algum lugar esquecido, numa praia perdida na primeira década do século uma menina de pele perfeitamente morena ainda brinca com a muleta da amiga.